Os objetivos do imperialismo contemporâneo

por Diogo Fagundes

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É como se os representantes autorizados do país escolhessem de vontade própria se espelhar numa Guatemala, numa Honduras ou, numa versão mais grandinha, no México e Colômbia, onde os EUA lograram estruturar países funcionais aos negócios privados e até à "democracia", mas corrompidos até a última raiz do cabelo por cartéis do gangsterismo e do para-militarismo.

A grande diferença do imperialismo contemporâneo para o clássico é que hoje não há preocupação com o controle político e administrativo de colônias: em vez da gestão custosa e politicamente difícil, vale mais a pena transformar grandes países em zonas de guerra permanente, um caos anárquico envolvendo conflito de bandos armados — com múltiplos vínculos com o mercado global, claro — infra-estatais.

Podem reparar: o objetivo final no Iraque, na Líbia, na Síria nunca envolveu a criação de uma ordem, mas a propagação sem fim no horizonte do caos. Zonas de pilhagem onde tipos criminosos negociam diretamente com o capitalismo global sem necessidade de clientela política, afinal os serviçais podem, porventura, ganhar independência ou buscar outros chefes, rebelando-se contra seus antigos senhores.

Os grandes estados do “mundo árabe” se assemelham, após a destruição promovida pelo imperialismo de carapaça humanitária, com a República Democrática do Congo, Mali, Somália e outros estados africanos que não constituem Estados de fato. Comprovam que o “definhamento” do Estado, sob a via capitalista, não pelo comunismo imaginado pelo Marx e Engels, é a pura barbárie. Talvez o melhor analista disto seja o falecido Luiz Moniz Bandeira, um destes grandes que se foram sem que houvesse cerimônia ou fanfarra, comprovando o desdém do país para com seus intelectuais mais talentosos

O Brasil de Bolsonaro pode ser compreendido nesta ótica: um processo de destruição de todos os mecanismos estatais voltados ao garantimento de uma estrutural impesssoal de políticas públicas. Nem Censo temos mais! O IBGE, o IPEA, o CNPQ, o corpo diplomático, as universidades, os órgãos públicos de cultura e memória histórica nunca estiveram tão desprestigiados. O ministro da Fazenda fala abertamente que não deve haver prestação de serviços públicos de saúde como feito até então, já que o Estado não consegue arcar com o envelhecimento da população. O Estado perde paulatinamente suas funções tradicionais e até mesmo o caráter policial se “privatiza”, conforme o processo de fortalecimento de milícias se acelera. À questão social dos famintos e desassistidos, deixemos a tarefa para igrejas e o crime organizado, muitas vezes em associação.

Mas há algo de mais fascinante na história: foi por livre e espontânea vontade! O país escolheu “democraticamente” se desfazer, implodir todo seu caráter público, numa bizarra eleição sem o competidor em primeiro lugar nas pesquisas devido à ação de uma farsa judicial — o que hoje é reconhecido oficialmente! É como se os representantes autorizados do país escolhessem de vontade própria se espelhar numa Guatemala, numa Honduras ou, numa versão mais grandinha, no México e Colômbia, onde os EUA lograram estruturar países funcionais aos negócios privados e até à “democracia”, mas corrompidos até a última raiz do cabelo por cartéis do gangsterismo e do para-militarismo.

Talvez seja um caso único na história: não precisamos nem de guerra ou da imposição muito ostensiva de interesses externos, afinal o país, para os quais tantos elogios e expectativas internacionais eram direcionadas, aquele de quem tanto se esperava para o futuro, almejou seu prório desfalecimento. E mais bisonhamente ainda: em nome da Nação, do patriotismo fajuto, do verde-amarelismo, do fortalecimento do país contra o “globalismo”.

Como disse o Bolsonaro naquele jantar em Washington: “O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer. Que eu sirva para que, pelo menos, eu possa ser um ponto de inflexão, já estou muito feliz”.

Ninguém pode duvidar que ele se esforça bastante. Terminado o desastre pelo qual o país passa, que lidemos com seus colaboradores, ativos ou passivos, como os países europeus fizeram com os aliados nazistas locais, muitos deles tremendamente “nacionalistas” — não esqueçamos que Pétain agia em nome da “pátria” contra o perigo comunista — após o término da Segunda Guerra: imprimamos neles a marca eterna da infâmia.

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