Sobre Salles e os Militares

por Hugo Albuquerque; Charge de Laerte

Charge de Laerte
Salles está frito e é frágil. Os militares não. Generais sendo apontados ou chamando a responsabilidade para si é um jeito de garantir a impunidade. Mas não se os EUA estão na jogada -- como no caso.

Muita coisa aconteceu nos últimos dias, e tudo faz parte do intrincado quebra-cabeças do Brasil. Pazuello, Salles, os movimentos internacionais como a (possível) queda de Netanyahu, as manifestações, o derretimento de Bolsonaro. É preciso ler todo esse caos com cuidado.

Salles, pois bem, é um dos pontos mais relevantes disso tudo. Quem pegou ele foi a própria estrutura americana de combate ao tráfico de madeira. Será que descobriram ou, agora, resolveram parar de fazer vista grossa.

A hipótese mais provável é que com a troca de comando nos EUA, Salles virou um alvo fácil. A partir daí, desde a investigação à abertura de inquérito, tudo veio de cima, do Norte. A questão é que Salles resolveu implicar o general Ramos.

Salles está frito e é frágil. Os militares não. Generais sendo apontados ou chamando a responsabilidade para si é um jeito de garantir a impunidade. Mas não se os EUA estão na jogada — como no caso.

Portanto, o episódio pode ter a ver com a absolvição de Pazuello. Embora ele tenha enfurecido alguns generais por ter trazido luzes demais sobre o Exército, protegê-lo é necessário para evitar o que é lido como possível efeito dominó de punições entre os generais.

O Exército se fecha e se une ao saber que questionamentos podem vir. Seja a gestão da pandemia, que pode gerar responsabilizações para além de perder o governo — e seus cargos.

Bolsonaro está desesperado para se salvar, e seus números abaixam perigosamente. A questão é: se ele não tiver apoio, inclusive golpista, para ficar no poder, os militares vão ter de ceder o que ganharam loteando um governo civil.

Perder cargos, talvez ver membros seus sofrerem punições e, ainda, ser objeto de uma reforma da previdência a exemplo daquela que os civis foram submetidos.

A resiliência do Partido Fardado contrasta com a mudança do jogo internacional. O governo Biden nos EUA e Netanyahu e Orban caindo em desgraça mudam a configuração das coisas de um modo que Bolsonaro não teria vez por aqui.

Os próximos movimentos indicam um crescimento da mobilização, mas os atores do militarismo brasileiro são poderosos e estão acuados. Isso significa que poderemos ter reações desesperadas de feras acuadas — mas que no fundo só querem uma saída para a (re)acomodação.

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