Sobre as fontes “de verdade”

por Clóvis Gruner

Um dia, será preciso estudar as reuniões de departamento como objeto e problema da história. Talvez como subproduto das narrativas distópicas, ou algo que o valha. Explico: tenho uma colega que costuma enfatizar, quando fala de suas atividades, que trabalha com “fontes mesmo, de verdade”.

Quem conhece o babado, sabe que há anos não apenas ampliamos a noção de documento e arquivo, e que essa coisa de “fonte de verdade” já não faz mais sentido, como muitos entre nós defendem, inclusive, que parte do trabalho de historiadoras e historiadores, é produzir seus arquivos e fontes.

Na fala da colega há, portanto, duas implicações.

Uma é mais comezinha, e diz respeito a uma tentativa de produzir uma hierarquia interna ao departamento, entre os que fazem “história de verdade”, e os outros. Mas por banal que pareça, ela revela uma concepção de história, assentada em uma hierarquia danosa à disciplina e aos modos de acesso e uso dos seus saberes.

Uma hierarquia que se revela e reverbera, por exemplo, na segregação entre acadêmicos, que produzimos história (alguns, inclusive, com fontes “de verdade”), e os que, não podendo produzi-la, a ensinam – basicamente, docentes da rede básica.

Os efeitos disso são muitos. Entre eles, o de colocar professoras e professores do ensino básico em uma posição sempre mais vulnerável que a nossa, docentes universitários.

Na mesma medida, temos dificuldade em nos conectarmos com a realidade dos que estão nas escolas – uma vez ouvi, também em reunião de departamento e enquanto colegas eram perseguidos, difamados, agredidos, expostos, humilhados e alguns perdiam seus empregos, que o Escola sem Partido era “uma coisa de internet”.

Tudo isso pra dizer mais ou menos o seguinte. Conhecer mais de perto a realidades das escolas e do ensino básico, e qual a percepção de passado e de história (que são coisas diferentes) tem o público que vive e respira fora dos limites da universidade, deveria ser parte de nosso papel como formadores de futuros docentes.

Isso se faz de diferentes maneiras. Inclusive dentro da academia, reconhecendo a legitimidade e a pertinência de pesquisas que não as minhas próprias, notadamente aquelas que procuram incorporar fontes e linguagens de uso comum, ou seja, a dimensão prática da história, e não apenas seu caráter disciplinar e disciplinado.

Que tanta gente respalde a militarização das escolas – os mesmos que apoiam aberrações ideológicas como o EsP – é, entre outras coisas, um sintoma de que, apesar dos esforços recentes, ainda há muito por fazer no que diz respeito a aproximação entre a universidade e, mais especificamente, as Humanidades, e o público leigo.

Porque se há, obviamente, aqueles que apoiam o projeto por convicção ideológica, há igualmente aqueles que o fazem por ignorar o papel fundamental da escola na formação da cidadania, de indivíduos autônomos e críticos, e de uma sociedade mais justa, plural e democrática. Governos não farão isso, certamente não governos de direita. Esse é o nosso papel, como historiadores e professores que somos. Empreitada difícil, reconheço. Mas subverter hierarquias disciplinares, me parece, é um bom começo.


Sobre o professor

É professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná (DEHIS/UFPR), nos cursos de graduação, no Mestrado Profissional em História e no Programa de Pós-graduação em História, onde é vinculado à linha de pesquisa ?Arte, Memória e Narrativa?. É membro pesquisador do grupo de pesquisa NAVIS (Núcleo de Artes Visuais), na linha de pesquisa História e ficção, e associado à REDHHDA (Red de Historiadores e Historiadoras del Delito en las Américas). Publicou, entre outros, ?Paixões torpes, ambições sórdidas: crime, cultura e sensibilidade moderna (Curitiba, fins do século XIX e início do XX)? (São Paulo, Alameda, 2018); ?Leituras matutinas: utopias e heterotopias da modernidade na imprensa joinvilense (1951-1980)? (Curitiba, Aos Quatro Ventos, 2003/Prismas, 2017); ?Imagem, narrativa e subversão? (São Paulo, Intermeios, 2016) e ?Nas tramas da ficção: História, literatura e leitura? (São Paulo, Ateliê Editorial, 2008), além de capítulos de livros e artigos em periódicos acadêmicos. Áreas de interesse: teoria da história e historiografia; história e violência; criminalidade; instituições penais; história e novas linguagens (literatura e história em quadrinhos). 
(Texto informado pelo autor – reproduzido da plataforma Lattes)


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