Sobre a depressão

por Pablo Villaça; Com vídeo do Ludoviajante

“É bom que hoje exista uma preocupação social com saúde mental e que tenhamos iniciativas como o Setembro Amarelo (meu mês de aniversário, por sinal) e o Dia de Prevenção do Suicídio (estabelecido em 10 de Setembro desde 2003), mas lembre-se: para o depressivo, TODO DIA é de prevenção contra o suicídio. E seu apoio é essencial SEMPRE.”


Reprodução – internet

Tudo tem gosto de cinzas quando a depressão nos mantém presos. Sob sua influência, as cores se tornam pálidas, o toque causa choque e o pensamento se cobre de nuvens. A lógica e a razão, que em melhores momentos nos mantêm salvos e nos alertam para o perigo, se alteram de tal forma (e num processo tão sutil) que, quando nos damos conta, decisões que habitualmente reconheceríamos como prejudiciais soam razoáveis e até mesmo inevitáveis – e aquela voz interna que aqui e ali nos surpreende com sugestões incômodas (“E se eu pulasse?”, vem a pergunta quando olhamos de uma janela alta) de repente deixa de ser um sussurro e se torna um comando.

Talvez resida aí a dificuldade de tantos em compreender que a depressão não é um estado de espírito, derrotismo ou algo que expulsaríamos se tivéssemos mais “força de vontade”: para quem nunca experimentou a insidiosidade da doença, sua natureza maliciosa e sua capacidade de enganar até quem julga conhecê-la intimamente, a depressão pode soar como uma tristeza anabolizada, um misto de autopiedade e desejo de chamar a atenção.

Pois é justamente o contrário: embora se manifeste de maneiras particulares em cada indivíduo, de modo geral ela provoca não autopiedade, mas antipatia de si mesmo – e em vez de “atenção”, a vontade maior é a de sermos deixados em paz, em silêncio e sós. Tristeza se compartilha; depressão se esconde.

Mas não deveria – não deve – ser assim. Se há algo que aprendi em mais de 30 anos de convivência próxima com esta doença é que ela se torna mais forte no escuro e no silêncio, ganhando peso e tamanho ao devorar a autoestima, a razão, o impulso de realização e a vitalidade de seu hospedeiro. Tentar ignorá-la ou mantê-la longe dos olhos alheios é a melhor forma de fortalecê-la e acelerar seu crescimento.


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Nestas três décadas, quase fui vencido por ela em duas ocasiões – a última há três anos. Mas sigo em pé por uma combinação de sorte, experiência, amor por meus filhos e teimosia. E, principalmente, o apoio daqueles que me cercam.

Infelizmente, este apoio nem sempre se mostra disponível a todos que precisam; nestes casos, é ainda mais fundamental buscá-lo ativamente, seja através de ajuda profissional, de grupos de apoio ou em comunidades online – de preferência, em todos estes meios. Claro, haverá momentos de profunda escuridão e desespero (os últimos meses têm sido alguns dos mais difíceis que já experimentei com a doença), mas também manhãs quentes e sorrisos. Há sempre esperança. Sempre.

A verdade é que a depressão é uma erva daninha que joga sal no terreno em que cresce, um vírus que não se importa com a autopropagação, mas apenas com a destruição de seu hospedeiro. Porém, eu estou determinado a impedi-la de alcançar seu objetivo e me derrotar. Mesmo que para isso eu precise lidar com seus efeitos um dia de cada vez.

E ainda que não seja fácil viver com objetivos tão breves, pensando em chegar até amanhã em vez de dez ou vinte anos à frente, esta é uma abordagem que garantiu muitos dias que eu teria perdido e alegrias que não teria experimentado.

Por enquanto, estas vitórias já valem a pena.


Pablo Villaça (Belo Horizonte, 18 de setembro de 1974) é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, um dos mais antigos sites de cinema no Brasil, por ele criado em 1997.

É crítico de cinema desde 1994. Colaborou em periódicos nacionais como MovieStarSci-Fi NewsSci-Fi Cinema e Replicante, e foi colaborador do quadro Ponto Crítico da revista Set. Também é professor de linguagem e crítica cinematográficas.
(Verbete da Wikipédia)


Tudo tem gosto de cinzas quando a depressão nos mantém presos. Sob sua influência, as cores se tornam pálidas, o toque…

Publicado por Pablo Villaça em Quinta-feira, 10 de setembro de 2020
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EXTRA

Canal Ludoviajante: Respondendo POLÊMICAS com filosofia | ludoresponde #13

Reprodução do Youtube:
Nesse episódio polêmico do #ludoresponde, falaremos sobre niilismo e vazio existencial. Por que suicídio não é a resposta? Obviamente, esse é um tema sensível que diz mais respeito à psicologia; hoje, porém, tentarei abordá-lo pela ótica da filosofia Absurdista, utilizando como exemplo o livro O Mito de Sísifo. Para Albert Camus, o suicídio era a questão mais importante da filosofia. Ele descreve 2 tipos de suicídio: o filosófico e o literal.

Sísifo é um personagem da mitologia grega, segundo a lenda, ele foi condenado a rolar uma pedra até o topo de uma montanha por toda a eternidade. Albert Camus enxerga nessa história uma metáfora para a vida moderna. De acordo com o Existencialismo, somos todos Sísifos empurrando nossas pedras. O desespero, no entanto, não é a resposta. Camus argumenta: “devemos imaginar Sísifo feliz”.

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CVV – Setembro Amarelo

O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias.

O suicídio é considerado pelo Ministério da Saúde como um problema de saúde pública, tirando a vida de uma pessoa por hora no Brasil, mesmo período no qual outras três tentaram se matar sem sucesso

CVV — Centro de Valorização da Vida

LINKS ÚTEIS

Para conhecer mais sobre voluntariado, apoio emocional, prevenção do suicídio, saúde mental e outros temas afins, acesse também:

Portal Ministério da Saude (MS)

Centro de Atenção Psicosocial (CAPS)

Centro de Referência de Assistência Social (CRAS)

Movimento Setembro Amarelo, Dia mundial de Prevenção ao Suicídio

Educação Emocional

Associação Brasileira de Psiquiatria

Movimento Conte Comigo, Prevenção a Depressão

Rede Brasiliera de Prevenção ao Suicídio

Informações sobre prevenção do suicídio

Transtornos mentais e dependência química

Centro Voluntariado de São Paulo

Associação Brasileira de Estudos e Prevenção de Suicídios

Sociedade Portuguesa de Suicidologia

Samaritanos de Londres

Befrienders Worldwide

Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio

Associação Americana de Suicidologia

Associação Canadense para a Prevenção do Suicídio

Telefono amigo-Italia

Voz de apoio – Portugal

Telefone de Esperança – Portugal

Fundação Americana de Prevenção de Suicídio

  • https://afsp.org/