Sobre a CHACINA do Jacarezinho

por um morador e professores

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É uma ação criminosa, terrorista, bárbara, um atentando contra o STF infinitas vezes mais grave que Daniel Silveira e os tresloucados fazem nas redes. Uma ação homicida voltada para uma classe social específica, de uma cor específica. É genocídio, é o que se viu na Segunda Guerra, na Alemanha.

Anderson França; via Amanda Moreira

Eram 5:50 da manhã, quando meu celular tocou. Era um amigo, morador do Jacarezinho.

Ele me mandou 3 áudios.
Ouvi helicóptero, tiro e rajada.
Eu tô nessa há muito, muito tempo, e sabia o que isso ia significar. Escrevi cedo, nas minhas redes, pedindo pras pessoas tomarem cuidado ao sair de casa.

Se você não é do Rio, ou se você é, e mora na zona sul, eu vou tentar explicar o que aconteceu hoje na cidade.

A violência é a forma de governo do Rio. Não é democracia. É violência. O pessoal da esquerda que tá com medo do Brasil virar uma ditadura, saiba: na favela, sempre foi ditadura. Já tem intervenção militar no morro. Não tem democracia no morro. Não tem liberdade no morro. Não tem essa sua tranquilidade, de concordar um pouco com uma coisa, um pouco com outra.

Existe um Brasil em guerra. Não, em guerra não. Guerra é se tivesse outro exército. Se fossem dois exércitos, de igual pra igual. O que tem não é isso. A favela do Jacarezinho tem mais de 80 mil moradores. É muita pobreza. Muito abandono, muito valão, muito trabalhador. A maioria esmagadora de trabalhadores.

O que tem não é guerra. É extermínio.

Hoje, no Rio de Janeiro, teve

Um morto em Madureira.
Um baleado na Vila Kennedy.
Um tiroteio em frente a um hospital na Penha.
Duas pessoas baleadas, no rosto e abdomen, no metrô.

VINTE E CINCO MORTOS na favela do Jacarezinho.
A “operação” de hoje é a mais letal da HISTÓRIA DO RIO DE JANEIRO.

Nas seis operações anteriores mais letais morreram, em média, 14 pessoas. Nesta, foram 25.

Esse gatilho foi apertado por Cláudio Castro
Jovem cantor católico carismático. Devoto de Maria. Ungido do Espírito Santo.

Você, Cláudio, vai pra cama hoje com 25 cadáveres.
Tem que ver se tem espaço pra todos eles no teu quarto.
E sangue. Muito sangue. Sangue pra alagar tua casa, Cláudio.

Pode me processar.
Você é governador, e governador com tudo que isso implica.
A Polícia Civil te obedece. Se ela matou, matou porque você permitiu. Porque você não ligou pro chefe da polícia e mandou cancelar a operação. Não fez isso, porque você queria que essas pessoas morressem.

Uma operação criminosa.
A operação é criminosa. O Ministério Público só foi comunicado três horas depois, às 9 da manhã, e a essa altura, os policiais da CORE já tinham baleado pessoas no metrô de Triagem, pessoas presas dentro dos vagões, abaixadas, sangrando, um trem pra morte, um trem que se inspira em Auschwitz? Porque a última vez que um governo de direita, de um país fascista, juntou trabalhadores e inocentes num trem e os executou, foi na Alemanha de Hitler.

O trem pra Auschwitz carioca é a Linha 2 do metrô, Pavuna.

As pessoas deram um beijo nos filhos, pegaram a bolsa, foram pra estação, encarar mais um dia de trabalho no país onde mais se enterra no mundo hoje. Nem bem o luto do ator Paulo Gustavo se concluiu no coração dessas pessoas, e elas, de repente, estão deitadas no chão, sem saber de onde vem o tiro, e estão totalmente desesperadas e entregues ao acaso.

Às sete da manhã, Cláudio Castro tomava seu suco de laranja, com torradinhas crocantes, requeijão e manteiga. O governador não passa fome. Ele não recebe auxílio emergencial de 150 merréis. Não, amado. Croassã, suquinho de maçã.

Em Ipanema, os jovens descendo pra pegar um solzinho na areia. Fazer um yoga maneiro, tomar um café vegano. Que delícia. E ler as notícias nas redes, pra ser um antifascista bronzeado.

A operação da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro foi uma tragédia. Além de criminosa, pois descumpre a determinação do Supremo Tribunal Federal, que PROIBIU operações, ela foi mal feita e uma sucessão de erros.

As ruas do Jacaré estavam banhadas de sangue. Moradores lavavam o sangue em frente a igreja Deus é Amor.
No Jacaré, nem Deus, nem Amor.

Corpos de pessoas eram retirados de casas, em lençóis. Policiais entraram em casas, sem mandados, apreenderam celulares, bateram nas pessoas, invadiram espaços privados, arrombaram portas, sem qualquer estratégia, não era operação, era CAÇADA.

Era a barbárie. Era entrar na favela e brincar de Counter Strike. Era o ódio no olho. Caçaram pessoas à esmo, e assassinaram. Matar 25 pessoas não muda o Rio. O crime não acaba com 25 pessoas mortas.

Até porque, a cabeça do crime organizado tá no Planalto. Tá na Barra da Tijuca, dentro do Condomínio Vivendas da Barra. Quem lucra com o tráfico mora no Leblon. Mora em Goiás, condomínio de alto padrão.

Tu já viu helicóptero da CORE voando baixo no Leblon? Já viu a CORE invadir apartamento de maconheiro em Ipanema? O ódio tem CEP e endereço certo.

É, sobretudo, extermínio do povo negro.
Do povo pobre, preto e branco de periferia, mas sobretudo, do povo negro.

Os policiais TIRARAM FOTOS DOS CORPOS dos jovens mortos, e COLOCARAM O POLEGAR DELES NA BOCA, pra simular que eram crianças. Debocharam dos cadáveres. Isso é selvageria.

Os policiais da CORE tinham que estar todos presos, exonerados, não deviam voltar pra casa, mas ir direto pra cana. Isso não é polícia, isso é grupo de extermínio. Facção criminosa usando distintivo.

Deus me livre e guarde de saber que o André, policial executado na operação, foi queimado com fogo amigo, pra ser o bucha e justificar a barbárie.

Mas impossível não é.
Já aconteceu outras vezes.

Na falta de inteligência, a violência.
Aquela região, Jacaré, Maria da Graça, Triagem, Benfica, Alemão, Del Castilho, vive tendo operação com águia da Civil e da PM, todos os dias. As pessoas na Zona Norte já não sabem mais o que é acordar no silêncio.

O que aconteceu hoje no Jacaré não foi o famoso “polícia recebida a tiros”, o nome é outro.

A polícia entrou, caçou, matou à esmo, e agora está cagando e andando pra Anistia Internacional, Igarapé, imprensa. Deitaram 25 corpos, e incluo o colega deles, e vão dormir como se nada tivesse acontecido.

Quando eu escrevi o Rio em Shamas, era por isso. O Rio está, há décadas, num inferno.

Não tem paz. Não tem Deus, nem amor. É fogo, chumbo e sangue.

O Rio dorme em luto, acorda sangrando.
Em nenhum lugar do mundo isso é normal.
Não precisa ir longe.
Vai em São Paulo, do lado.

Morre pra caralho em São Paulo.
A PM de lá mata pra caralho.
Mas o Rio é um escracho.

Todas as operações, SEMPRE no horário quem os trabalhadores saem de casa. Seis da manhã. Querem matar trabalhador, não bandido.

A polícia do Rio matou, de janeiro a março, 450 pessoas.
E isso porque o STF proibiu de fazer operação.
Lembra quando não tinha COVID?

Quando não tinha COVID, a polícia era o que mais matava no Brasil. Só uma pandemia conseguiu ser pior que a polícia.

O nome pro que aconteceu no Jacarezinho não é guerra.
É chacina. É o país do genocídio, da fome, da chacina.

Os 24 mortos não tiveram nomes revelados. Mas foram chamados de criminosos. Quem eram? Cadê o RG? Cadê a ficha corrida? Não tem nada. A Polícia Civil de maneira canalha dizendo que é vítima, protetora da paz, e que se ela não matar, vai ser pior.

6 de maio de 2021.
O dia da Chacina do Jacarezinho.
(Autor: Anderson França)

Pedro Fassoni Arruda

Na ação mais letal da história, a polícia do Rio de Janeiro matou 25 pessoas na favela do Jacarezinho. Moradores relatam que a maioria dos mortos foi executada sumariamente. Eram pessoas que estavam desarmadas, rendidas e que não ofereciam qualquer risco para as forças policiais. Um homem foi morto dentro do quarto de uma criança, outro foi baleado com um tiro na nuca, outro estava completamente rendido.

Não existe Estado Democrático de Direito para negros, favelados e pobres. Decisões do STF a respeito de protocolos de segurança não valem nada. Não existe devido processo legal, não existe direito ao contraditório, não existe direito à ampla defesa. Esse conjunto de regras são meras ficções que só existem em manuais de Direito. Nossa polícia é a que mais mata no mundo, e também é a que mais morre.

No exato momento em que a Câmara dos Deputados aprovou a revogação da Lei de Segurança Nacional (ainda falta aprovar a mudança no Senado), precisamos urgentemente discutir a desmilitarização da polícia. Nenhum país dito democrático no mundo tem uma polícia militarizada, que seja responsável pelo patrulhamento ostensivo e preventivo. Esse modelo de polícia tem que acabar. O processo de recrutamento, treinamento e doutrinação (voltados para a guerra e extermínio do “inimigo interno”) é típico de Exércitos que vão para o campo de batalha com o único propósito de matar. E isso é incompatível com uma noção de segurança pública, mesmo se considerarmos os estritos limites da democracia burguesa. A carnificina no Jacarezinho, feita pela Polícia Civil, mostra como essa lógica de guerra já contaminou praticamente todas as nossas forças de segurança.

Eu quero essa polícia fora do mundo. Uma polícia que mata o seu próprio povo tem que desaparecer.

PS1: Devemos pautar outra coisa importante, e com urgência: a legalização das drogas. A chamada “guerra às drogas” nada mais é do que uma guerra aos pobres. Nenhum traficante rico vai pra cadeia.

PS2: A ação no Jacarezinho foi da Polícia Civil. Que agiu exatamente como militares do Exército numa guerra…

Samuel Braun

O Supremo Tribunal do país ordenou que não se fizesse operação policial que não visasse proteger a vida, e que nesses casos excepcionais (pra salvar uma vida), se fizesse resguardando vidas, não ceifando.

É surreal ter que mandar a polícia – que serve unicamente para fazer cumprir a lei – cumprir ela mesma a lei!

E mesmo assim, a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro fez uma operação que não visava salvar nenhuma vida, e matou 25 pessoas de uma só vez!

A maior chacina da história do Rio de Janeiro. Da história de um dos lugares mais violentos do mundo. Um massacre, uma ação terrorista que feriu pessoas nas ruas, nas casas, no metrô, nos carros e motos.

E no final da matança, ainda posam com os despojos: meia arma pra cada corpo deixado no chão. Umas plantas e uma farinha. Um corpo violado posto numa posição mandando quem o visse se calar. Coisa bárbara!

É uma ação criminosa, terrorista, bárbara, um atentando contra o STF infinitas vezes mais grave que Daniel Silveira e os tresloucados fazem nas redes. Uma ação homicida voltada para uma classe social específica, de uma cor específica. É genocídio, é o que se viu na Segunda Guerra, na Alemanha.

Daniela Lima

A chacina do Jacarezinho nos lembra de como era – e ainda é – o mundo antes da COVID-19. Um mundo para o qual dizemos insistentemente que gostaríamos de voltar. Mbembe escreve: “antes deste vírus, a humanidade já estava ameaçada de asfixia. Se tiver de haver guerra, deverá ser, em consequência, não contra um vírus em particular, mas contra tudo o que condena a grande maioria da humanidade à paragem respiratória (…), tudo o que, na longa duração do capitalismo, confinou segmentos inteiros de populações e raças inteiras a uma respiração difícil, ofegante, a uma vida pesada”.

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