Racismo para a Psicologia

Por Gustavo Castañon; Com vídeo

Racismo para a Psicologia – por Gustavo Castañon; Com vídeo

Compartilhe o conteúdo:

Arte: Nenê Surreal / Roda Terapêutica das Pretas

O conceito que circula por aí de racismo entre militantes de esquerda é o SOCIOLÓGICO. Como dizer que uma SOCIEDADE é racista? Evidentemente, se essa sociedade ESTRUTURALMENTE, em suas condições econômicas e instituições, segrega determinado grupo que é reconhecido como uma raça, mesmo que essa segregação não esteja determinada por lei.

É por isso que EXISTE RACISMO, do ponto de vista sociológico, no Brasil, e ele é contra negros e índios. É por isso que não faz sentido falar de “racismo reverso” no Brasil, COMO SOCIEDADE, porque os brancos não sofrem consequências negativas por serem brancos.

O termo mesmo “racismo reverso” é uma idiotice, não existe tal coisa. O racismo não é só de uma raça x para uma raça y, para ter uma forma “reversa”. Racismo pode ser contra qualquer raça.

A outra forma do conceito de racismo é o PSICOLÓGICO. A Psicologia Social, que estuda indivíduos em processo de interação social, se pergunta o que, DO PONTO DE VISTA DO INDIVÍDUO, é “racismo”.

Para a Psicologia Social, racismo é uma atitude (do indivíduo) perene, discriminatória, em relação a pessoas de determinado grupo que ela reconhece como sendo de uma raça, que faz a pessoa reagir a um estereótipo negativo desse grupo.

Esse estereótipo geralmente incluí crenças sobre a natureza biológica de fatores negativos acerca da inteligência e moralidade desse grupo fenotípico, e que, portanto, não poderiam ser mudados. Então temos que explicar o que é “raça”, “atitude”, “estereótipo” para entendermos o conceito.

RAÇA para a biologia é a humana, não há diferença genética entre seres humanos em volume que justifique falar em raças na biologia. Nosso DNA inclusive é super misturado. Lembro que há uns anos fizeram uma pesquisa dessas com o Neguinho da Beija-Flor que constataram que a maioria dos genes dele era de origem europeia. Por isso eu defini como “reconhece como sendo de uma raça”. Raça dentro da espécie humana é um conceito que só tem sentido sociológico, não biológico. Uma pessoa reconhece alguém como sendo de uma raça porque acredita que exista tal coisa.

ATITUDE é um sistema perene de organização de experiências e comportamentos responsivos relacionados com um objeto de determinado tipo (ou seja, uma disposição de interpretar e reagir sempre de determinada forma a determinado estímulo). Toda atitude é composta por três componentes: cognitivo, afetivo e comportamental. A interpretação que se faz de um objeto, o sentimento que ela desperta em relação a ele e uma tendência a se comportar de determinada forma em sua presença.

ESTEREÓTIPO é uma crença complexa acerca de um conjunto de características que seriam compartilhadas por todos os membros de uma categoria social. Quando esse estereótipo é negativo, chamamos de PRECONCEITO. Quando o preconceito é contra um grupo que compartilha alguma característica física que se atribui a uma raça por natureza genética, chamamos de RACISMO.

Fica fácil entender porque, do ponto de vista da psicologia, pode haver racismo DO INDIVÍDUO contra vários grupos sociais diferentes. É um fato evidente. Há brancos que tem um estereótipo negativo de negros e negros que tem estereótipo negativo de brancos. O que não existe no Brasil é racismo de um ponto de vista sociológico contra brancos. Mas indivíduos racistas tem contra brancos, negros, asiáticos, indígenas, judeus…

E aí sobra abordar o racismo do ponto de vista político. Qualquer declaração do tipo “Todo X é Y”, sendo X uma “raça” e Y uma característica moralmente negativa é reconhecida como racista. Está impregnada de determinismo biológico ou sociológico. Mas o mais importante não é você concordar com isso ou não. O importante é que é assim que ela será recebida pela maior parte da comunidade X, não importa o que você acredite. E pior que fazer política com declarações que serão recebidas como racismo, é fazer política chamando de racista quem questionar o conteúdo dessas declarações. Isso é comer merda e pedir, não para repetir, mas para injetá-la na veia.

O racismo estrutural no Brasil só atinge negros e índios. Mas o racismo individual tem de todo tipo. Quem quiser entender a diferença entre o conceito na sociologia e na psicologia entenda. Já o povo brasileiro não quer saber de nada disso. O que ele quer é não ser julgado pela cor de sua pele, mas pelo seu caráter, como disse um dia Luther King. E quem não entender isso vai pro cadafalso político.


EXTRA

O QUE É RACISMO ESTRUTURAL? | Silvio Almeida

Novos vídeos a cada 3 dias. Inscreva-se: 👉🏾 http://bit.ly/1bxZhtb

O filósofo do direito e presidente do Instituto Luiz Gama Silvio Almeida, autor de “Sartre: direito e política” (https://tinyurl.com/qnyhvf5) destrincha didaticamente o conceito de racismo estrutural neste depoimento colhido por Artur Renzo para a TV Boitempo. Silvio Almeida é o coordenador do dossiê especial sobre “Marxismo e a questão racial” da revista da Boitempo, a “Margem Esquerda” (https://bit.ly/2Yvm6P3).

📚MARXISMO E QUESTÃO RACIAL, por Silvio Almeida Edição especial da revista da Boitempo, com dossiê de capa coordenado por Silvio Almeida
👉🏾https://bit.ly/2Yvm6P3 ★ ASSINE A MARGEM ESQUERDA E LIBERE DESCONTOS EM TODOS LIVROS DA BOITEMPO ★

📚Assinatura anual (10% de desconto + 15% de desconto em todo catálogo):
👉🏾 https://tinyurl.com/qu563lr

📚Assinatura bi-anual (15% de desconto + 30% de desconto em todo catálogo):
👉🏾 https://tinyurl.com/u3xtfre

📚”SARTRE: DIREITO E POLÍTICA”, de Silvio Almeida

Boitempo — https://tinyurl.com/qnyhvf5
Livraria Saraiva — http://bit.ly/2aJfAgh
Livraria da Travessa — http://bit.ly/2aJeXDl
Livraria Cultura — http://bit.ly/2aJfPHQ


Sobre Gustavo Castañon

Foto de perfil no Facebook

– Gustavo Arja Castañon é graduado em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1998) e em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006). Mestrado em Psicologia Social pela UERJ (2001) e em Lógica e Metafísica pela UFRJ (2009). Doutorado em Psicologia pela UFRJ (2006) e Pós-doutorado em Filosofia da Ciência pela Durham University (2015). É professor adjunto do departamento de Filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora e professor do Programa de Pós-graduação em Psicologia e do Programa de Pós-graduação em Filosofia da mesma instituição. É membro do GT de Filosofia da Ciência da ANPOF e atua como pesquisador no NUHIFIP (Núcleo de História e Filosofia da Psicologia), UFJF, no NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde), UFJF, e no CEPISHC (Centro de Epistemologia e História da Ciência) do PPGLM, UFRJ. Tem se dedicado à investigação do construtivismo filosófico e a problemas de Epistemologia da Psicologia, particularmente ao problema da natureza das leis e explicações científicas na disciplina.
 (Texto informado pelo professor, reproduzido da plataforma Lattes)


RACISMO PARA A PSICOLOGIAO conceito que circula por aí de racismo entre militantes de esquerda é o SOCIOLÓGICO. Como…

Publicado por Gustavo Castañon em Quarta-feira, 23 de setembro de 2020
Post original