Os processos de legitimação da extrema-direita na França

por Andrea Barbosa

Homenagens a Samuel Paty, professor – Internet

Considero problemático que tanta gente embarque na balela de que a caricatura de Maomé seja tratada como uma questão de fanatismo religioso versus liberdade de expressão. É um problema político e é uma questão das vidas que causam comoção e as que não. O incidente por si só é trágico: em um só golpe foi-se a cabeça de um professor e a vida da mão que a arrancou, certamente alguém adoecido. É trágico também o clima de medo que o incidente instaura na relação escolar. Professores tensos e crianças mulçumanas visadas. No entanto, para além do horror, duas questões poderiam ser feitas: por que essa insistência na imagem de Maomé ou Alá como mote da liberdade de expressão? E que vidas se tornam mais expostas diante dessa provocação?

Eu entendo que o problema das caricaturas que fazem referência à religião mulçumana é uma ofensa antes de mais nada política porque é um escarnio que se use Maomé como símbolo do direito à liberdade da expressão quando milhares de mulçumanos estão sendo passados por um moedor de carne. Sabemos que a imigração que chega na França é em grande medida de origem mulçumana e isso graças à colonização que faz com essas pessoas tenham o francês como primeira ou segunda língua. E isso também graças à eterna interferência das grandes potências, entre as quais a França, que não por acaso são os países que mais lucram com o comércio bélico nessas regiões.

Uma das formas de tornar as vidas desses povos menos válidas é o desprezo por suas práticas culturais e religiosas. A cada desprezo por uma mulher de véu há uma mulher desempregada, há crianças sendo subestimadas nas escolas europeias, outros com o visto negado, há vidas menosprezadas nas travessias entre continentes pela busca de sobrevivência, há legitimação do direito de interferir politicamente nesses países. Comparar com as caricaturas que também são feitas do cristianismo é um debate muito parecido com o do racismo às avessas. É tratar como iguais os que controlam o disparo e os que morrem.

É também hipocrisia. Até hoje a França não ensina às suas crianças a história da colonização com clareza. O horror na guerra da Argélia, o genocídio na Ruanda… que tal lutar para abrir a caixa preta do governo francês como forma de luta pela liberdade de expressão?

Quando o foco das charges é o povo mulçumano, são suas cabeças que ficam a prêmio. Quando um professor tem uma cabeça arrancada, são os mulçumanos que estão com a cabeça a prêmio também. O alvo das vidas sem valor não varia.


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