OS MOVIMENTOS BRASILEIROS E BIDEN

por Elaine Tavares

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Não há diálogo com os Estados Unidos. É sempre uma imposição que vem de lá. Sempre. Basta perseguir a história. Sentar com o presidente dos Estados Unidos para tentar fugir da sanha de Bolsonaro é trocar seis por meia-dúzia.

Li a carta para Joe Biden, o presidente dos Estados Unidos, que quase 200 entidades e movimentos brasileiros assinam. Eles pedem que o governo dos Estados Unidos não feche nenhum acordo com o governo de Jair Bolsonaro e que discuta com a sociedade brasileira as proposta que ele possa ter para ajudar a Amazônia. Um equívoco constrangedor.

Ora, companheiros. Biden não terá nenhuma proposta para a Amazônia que não seja para defender os interesses dos Estados Unidos, como sempre foi qualquer ação por parte dos EUA na América Latina e no mundo. Esse é um governo que já começou bombardeando a Síria, reforçando os ataques aos palestinos e prendendo crianças latinas na fronteira. Biden não é um interlocutor para os movimentos sociais nem para os indígenas. O máximo que ele pode aceitar dos povos originários brasileiros é que eles se mantenham como um reduto folclórico, que é exatamente o que espera dos povos originários dos Estados Unidos. Nada de reivindicar terra ou direitos. Nada de se interpor a qualquer ação do capital para roubar energia ou riqueza. Quando Biden fala em proteger a Amazônia ele está dizendo proteger para eles.

Jamais, nem nos meus mais terríveis pesadelos, pensei em ver companheiros e companheiras que caminham nas lutas mais radicais dentro do nosso país fazendo esse pedido que chega a ser patético. Que é que restou da esquerda desse país? Que é que restou de nossa dignidade? Foi-se com a pandemia? Foi comida pelo vírus? Não temos sido capazes de lutar por nós mesmos, vamos pedir ajuda ao império? A um estado que já nos imputou as maiores violências e dores?

Sei que muitas vezes os povos originários do Brasil precisam sair pelo mundo fazendo denúncias e expondo as tragédias que vivem porque, no geral, tampouco encontram nos movimentos nacionais, nos sindicatos e partidos de esquerda, a força que precisam para enfrentar com mais eficácia os ataques que sofrem. Isso é necessário, muitas vezes. Mas querer estabelecer um “diálogo” com Biden é um tiro no pé. O governo dos Estados Unidos não têm amigos, ele tem interesses, já disse um de seus Secretários de Estado.

Não há diálogo com os Estados Unidos. É sempre uma imposição que vem de lá. Sempre. Basta perseguir a história. Sentar com o presidente dos Estados Unidos para tentar fugir da sanha de Bolsonaro é trocar seis por meia-dúzia.

Só tem uma forma de vencer Bolsonaro: nossa luta aqui, entre nós. Qualquer ingerência nos cobrará caro.

Não assino essa carta. Eu a repilo. E tremo de dor e indignação.

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