Sobre o caso do menino Henry

por Bia Bô

Reprodução - internet
Vocês acham mesmo que alguém, esposa, babá, porteiro, faxineira, pai, avô, quem quer que fosse, que descobrisse que o menino Henry estava sendo torturado por um cara como Jairinho, iria mesmo mover uma denúncia desse caso?

Gente, eu super entendo toda comoção que esse caso do menino Henry está gerando e acho que faz todo sentido do mundo o ódio que as pessoas estão sentindo dessa mãe por estar acobertando o homem que torturou e assassinou seu filho. Tem gente aqui, no twitter e no instagram criticando até a babá da família por não ter denunciado e eu juro que entendo a revolta. A tortura e assassinato a sangue-frio de uma criança de 4 anos é algo que revolta mesmo qualquer pessoa que tenha algum resquício de coração batendo no peito.

Mas eu quero pontuar uma coisa simples aqui que pouca gente na internet tem percebido e que eu acredito que faz toda a diferença quando se analisa esse caso específico: o histórico político do Dr. Jairinho. Para quem não sabe, Jairinho é filiado ao Solidariedade (o partido já anunciou que pedirá sua expulsão), se elegeu a primeira vez em 2004 e é figura bastaaaante conhecida do legislativo carioca. Ele é filho do ex-deputado estadual, de extensa carreira política, Coronel Jairo (PSC), preso em 2018 pela operação Furna da Onça, acusado de receber “mesada” de Sérgio Cabral para aprovar projetos. Ambos, pai e filho, são conhecidos pelo envolvimento de longa data com milícias cariocas. Chegaram a ser acusados em 2008 de terem participado da sessão de 7 horas de tortura de uma equipe do Jornal O Dia (uma repórter, um fotógrafo e um motorista), que investigava sob disfarce o cotidiano de uma comunidade carioca controlada por milicianos.

Vou refrescar a memória de vocês aqui: faz pouco mais de 3 anos que milicianos no Rio de Janeiro tiveram a audácia de assassinar a céu aberto a Marielle Franco, que era nada menos que a quinta vereadora mais votada da cidade do Rio de Janeiro. Marielle morreu, em um atentado que também vitimou seu motorista Anderson Gomes, por ter mexido com os interesses das milícias cariocas, denunciando inúmeros casos de abusos de autoridade por parte de policiais em comunidades carentes.

Vocês acham mesmo que alguém, esposa, babá, porteiro, faxineira, pai, avô, quem quer que fosse, que descobrisse que o menino Henry estava sendo torturado por um cara como Jairinho, iria mesmo mover uma denúncia desse caso? Que qualquer pessoa com um pingo de juízo na cabeça ia registrar esse B.O. na polícia? No Rio de Janeiro?

Eu não quero de jeito nenhum inocentar a Monique. Eu não sou mãe e imagino que todas as mães que eu conheço iriam até o fim do mundo para proteger seus filhos. Mas a gente realmente não sabe o que está acontecendo nos bastidores para que a babá não tenha denunciado, para que outras pessoas que possam ter desconfiado das agressões tenham se omitido e para que a mãe, no decorrer das investigações, esteja agindo de modo tão frio e acobertando um assassino. E tem uma coisa que a gente sabe: quem manda e desmanda, quem controla quem vai viver e quem vai morrer no Rio de Janeiro hoje são as milícias. Não deve ser nada suave mexer nos interesses desse pessoal. E não é uma babá que vai fazer isso, gente.

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