O QUE É LUGAR DE FALA CIENTÍFICO?

por Rodrigo Perez Oliveira; Com vídeo

Reprodução – Amazônia Real

Talvez o termo “lugar de fala” seja, hoje, o mais vulgarizado no debate público. Inicialmente pertencente ao campo da análise do discurso, o conceito, inadequadamente, foi transformado em régua moral usada para qualificar e interditar determinadas falas, tomando como o critério o corpo daquele que está falando.

Por partes que o tema é espinhoso. No seu significado original, “lugar de fala” é categoria cognitiva que parte de verdade óbvia: todo aquele que fala, fala a partir de um lugar na geografia da sociedade. Não existem falantes universais capazes de falar por todos. Toda fala tem pertencimento, é parcial.

Portanto, ao evocarmos o lugar de fala nosso objetivo deveria ser posicionar, localizar discursos, jogar luz sobre o lugar de onde o falante está falando.

“Peraí, eu tenho lugar de fala!”. Óbvio, cara pálida, todos temos!

Ingenuamente, a militância identitária moralizou essa discussão, como faz com quase tudo. Diz o identitário que pretos e pretas seriam mais legítimos para tratar do racismo. LGBTS mais legítimos para tratar de homofobia. Mulheres mais legítimas para denunciar o machismo.Com essa leitura enviesada do conceito, identitários entraram numa roubada, numa situação de impasse da qual não conseguem sair, e nem conseguirão. As forças do atraso aprenderam rapidamente como explorar a fragilidade do discurso identitário.

É fácil fácil encontrar um preto para reivindicar o fim do sistema de cotas, um LGBT para dizer que não existe homofobia no Brasil, uma advogada mulher disposta a defender publicamente jogador de futebol condenado por estupro.

Não à toa, Robinho contratou uma advogada mulher para fazer sua defesa política no tribunal moral das redes sociais. Os perversos não são burros.A condição de existência de pretos e pretas, LGBTS e mulheres não lhes garantem o monopólio da virtude. O valor moral da fala não está no corpo do falante. Está no conteúdo do discurso.

O mesmo podemos dizer para o médico que aparece na rede social denunciando a “vacina chinesa”, ou defendendo o uso da cloroquina como tratamento para a covid-19. Nesta semana, o Deputado bolsonarista Daniel Silveira (PSL/RJ) entrou em aeroporto portando atestado médico assinado por um dermatologista autorizando-o a dispensar o uso de máscara. Silveira se vangloriou de já ter distribuído “mais de vinte iguais a esse”.

É fácil fácil achar “doutor” disposto a endossar o negacionismo científico.

O “lugar de fala científico”, diferente do “lugar de fala”, não é apenas categoria de posicionamento discursivo. É, também, delimitação de autoridade científica. Não basta portar diploma de médico para ter autoridade científica.

A autoridade científica não é pessoal, não pertence ao sujeito, ou ao diploma. É sempre institucional.

Quando a Fiocruz, o Butantã, a UFRJ, a UFBA, a USP falam, quem está falando é um colegiado de especialistas autorizados pela comunidade científica. Cientistas que têm seu trabalho fiscalizado por outros cientistas.

Em ciência, a fala autorizada não pertence aos sujeitos, mas sim às instituições.

Por isso, leitor e leitora, ao esbarrar com algum “doutor” falando na internet, sempre perguntem: qual instituição está autorizando essa fala? Se não houver nenhuma, fiquem atentos, pois há o risco de a criatura estar mal intencionada, igualzinho ao preto que nega a existência do racismo, ao LGBT que diz nunca ter sido vítima de homofobia ou a mulher que afirma não precisar do feminismo.

Pessoas falam o tempo inteiro. Falam sobre tudo, falam qualquer coisa sobre tudo. Afinal, quem tem boca fala o que quer.

Uma das vocações da boca é falar. Cabe a nós, que ouvimos, avaliar o que serve e o que não serve, e jamais nos deixar levar pela crença ingênua de que determinados falantes estão corretos simplesmente por serem o que são.


EXTRA

Mano Brown e Francisco Bosco discutem lugar de fala e apropriação cultural


Sobre o professor

– Rodrigo Perez Oliveira: Sou bacharel e licenciado em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestre e doutor em história social por essa mesma instituição. Ao longo da minha formação, pesquisei os temas da história do pensamento político brasileiro e dos usos do passado no texto historiográfico e nas narrativas políticas. Atualmente, sou professor adjunto de Teoria da História e Historiografia Brasileira da Universidade Federal da Bahia, atuando na graduação e na pós-graduação, onde leciono disciplinas vinculadas à área da Teoria da História e da História da Historiografia e desenvolvo e oriento pesquisas que, de alguma forma, se debruçam sobre o tema do pensamento político brasileiro. Meus interesses de pesquisa estão concentrados nas relações entre a epistemologia histórica e a história política. Neste momento, estou desenvolvendo pesquisas sobre a historiografia brasileira produzida nos anos da redemocratização e sobre a experiência de crise institucional que desestabiliza a cena política brasileira desde 2013.
(Texto informado pelo professor, reproduzido da plataforma Lattes)


Post original