Guedes deixou, faz tempo, de ser “superministro”

por Luis Felipe Miguel

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Ele falou com liberdade porque não sabia que a reunião estava sendo transmitida pelas redes sociais do Ministério da Saúde. Então assumiu plenamente a teoria conspiratória preferida da extrema-direita, dizendo que "o chinês inventou o vírus".

Guedes deixou, faz tempo, de ser “superministro”. Mas, aferrado ao cargo, aceitou bem a nova situação. E continua cumprindo o papel ao qual estava destinado: é o talismã que faz com que a burguesia e seus porta-vozes não abandonem o governo, por mais criminoso e insano que ele se mostre.

Para dourar a pílula, insistem na balela de que Guedes representa uma ala “racional” ou mesmo “técnica” do governo. Um pobre banqueiro constrangido à convivência com milicianos e terraplanistas.

É uma lenda que não resiste a cinco minutos de observação de Guedes, um ministro da Economia singularmente incompetente, despreparado para o cargo e insensível à realidade.

Basta pinçar alguns highlights de sua performance na reunião do Conselho de Saúde Complementar, ontem.

Ele falou com liberdade porque não sabia que a reunião estava sendo transmitida pelas redes sociais do Ministério da Saúde. Então assumiu plenamente a teoria conspiratória preferida da extrema-direita, dizendo que “o chinês inventou o vírus”.

Isso para louvar a eficácia superior das vacinas estadunidenses, porque “o americano tem cem anos de investimento em pesquisa”. Inadvertidamente, confessou que seu projeto é de um Brasil para sempre atrasado – já que sua política econômica não dá nenhuma margem para investimento em pesquisa.

Aproveitou para, uma vez mais, defender o desmonte do sistema de saúde pública – em vez disso, seriam dados vouchers, para o pobre “ir no Einstein, se quiser”.

A velha defesa a priori das virtudes do mercado, que, entre muitas outras coisas, ignora que o mercado opera por segmentação. Tenho uma ideia melhor: cobrar dos ricos os impostos que Guedes não quer cobrar e socializar todo o sistema hospitalar. Com isso irá ao Einstein não quem “quiser”, mas quem precisar.

De quebra, anunciou que morrer jovem é ato de patriotismo (ele e seu chefe bem podiam dar o exemplo). Segundo Guedes, hoje “todo mundo quer viver 100 anos” e o orçamento do Estado não aguenta.

Nem é preciso qualquer comentário para descrever o tipo de visão que sustenta uma frase destas.

Mas o eterno Chicago boy pode ficar orgulhoso. O governo ao qual ele serve, adotando as políticas que ele patrocina, está promovendo a primeira redução da expectativa de vida dos brasileiros em décadas.

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