Existe classe além do proletariado? Uma reflexão de Glaucia Campregher; Com vídeo

Reprodução – Diário Liberdade

Num papo aqui sobre proletariado e revoluções, passadas e presentes, acabei voltando num ponto que tento insistir com meus amigos…

Pra mim, a análise do Marx sobre ser o proletariado a classe da próxima e última revolução (porque depois seria o fim das classes) foi puro (e correto!) oportunismo político seu.

Foi porque ele viu uma chance real de pegar carona na revolução burguesa (o que de fato se fez em toda parte, mesmo quando no início os trabalhadores só fossem usados como bucha de canhão contra a nobreza!). Digo isso pq pra mim destoa da sofisticação das análises marxistas as suas sobre o proletariado ser revolucionário “porque não tem nada mais a perder”.

Haja indeterminação! Sem falar que ele tinha, e perdeu! Perdeu muito no início da rev industrial e se ganhou algo depois, nos aspectos materiais, também teve perdas, de saberes, de laços, etc. (A despeito d’eu também ser fã do progresso, não dá pra ver nele só ganhos…).

Na real, o proletariado é irmão da burguesia, nascem no mesmo processo de diferenciação social que ocorre na crise (em todos os seus aspectos) do mundo feudal. Mas a questão mais sensível aí é que ocorre com a categoria classe um pouco do que ocorre com a categoria valor – nem bem as condições pro seu surgimento aparecem, elas acontecem e já aí o jogo todo muda. Ou seja, antes as classes existiam com aspas, a história da humanidade era a da suas lutas mas os agrupamentos humanos concretos eram outros (castas, estamentos, etc).

Só no kismo podemos falar em classe mesmo – pois só aqui elas se definem pelo critério claro, objetivo e exclusivamente material da posse ou não dos meios de produção. Só que nem bem elas se estabelecem aqui e o processo que deu nelas passa do ponto! Em particular, o indivíduo, que é o nó fundador da classe burguesa (e é negativamente do proletariado pois este sendo sozinho fora da comunidade não pode viver por seus pp meios, daí a OBRIGATORIEDADE dele fazer laços políticos!) tem seus dias contados no kismo.

Isso pq:

1) Também os indivíduos burgueses não podem se fazer sozinhos – a despeito do seu blá blá blá, eles também se fazem por seus laços políticos (e aliás, Marx diz isso no Manifesto, que o proletariado aprende política com a burguesia);

2) Naquilo que é vero que o indivíduo é um sozinho real o processo de divisão que lhe deu origem não para (e por dentro ele fica acompanhado de vários, como a psicanálise bem descobriu…).

Pra entender as revoluções modernas que o proletariado participou mal ou bem, não tendo contudo dirigido nenhuma sozinho (como lembrava o Gustavo Gindre no post que me fez vir aqui), não temos só de ver as mudanças pq passou ele passou e tem passado como “classe”, temos também de ir mais fundo e revermos o que fez e faz de nós, os despossuídos um grupo que pode (e deve) agir coletivamente em favor do coletivo.

Mas pra isso devemos também pegar a dimensão micro e particular, dos não mais indi-víduos. Isso por sinal nos ajudaria a incorporar as lutas recentes chamadas mal e bem de identitárias. E com isso não to levando os processos políticos pra esfera micro e deu, inclusive pq junto com tudo isso o Estado se modifica também! Não procede seu fim, a la um certo Marx que chegou a falar da sua desnecessidade (junto com a do capital) quando se chegasse na “administração das coisas pelas coisas”.

Mesmo que ele acertasse que isso seja uma tendência dos processos de racionalização (num certo sentido ele antecipou a computação chegando aos temas sociais!) , isso não chega a apagar a função política mas a deslocá-la.

A função política, os conflitos entre grupos e os nossos internos, são próprios do humano, não da “natureza humana” dada por deus, mas da “natureza” que nos demos – nós humanos – ao fazermos a nossa história.


EXTRA

Jogando Among Us enquanto doutrino os gamers e mostro que “neutralidade politica” é sabotagem


Sobre a professora

Graduação em Ciencias Economicas pela Universidade Federal de Viçosa (MG), com mestrado e doutorado pela Unicamp, com os temas “Desdobramentos lógico-históricos da ontologia do trabalho em Marx” e “Para uma crítica da economia política do não-trabalho”. Trabalhou por 12 anos na Universidade Federal de Uberlandia (MG), de onde afastou-se para atuar no executivo estadual no RS. Tornou a academia para lecionar na área de macroeconomia e economia brasileira na graduação e pós-graduação da Unisinos, também no RS. Hoje leciona na UFRGS e pesquisa temas relacionados às novas formas de articulação do trabalho, seja ao nível mais empírico – como na economias solidária, colaborativa, criativa -, seja ao nível mais teórico – como estes poderiam implicar na construção de formas de sociabilidade pós-capitalista; e temas relacionados a Teoria Monetária Moderna.
(Texto informado pela professora, reproduzido da plataforma Lattes)


Publicação original