Hoje é dia da/os Brasileiras/os Raiz (mas “todo dia é dia de índio” !)

por Chico Alencar

Reprodução - internet
Somos todos Kaingang, Bororo, Txucarramãe, Pataxó, Waimiri-Atroari, Kalapalo, Guarani, Guajajara, Tamoio, Carajá, Munducuru, Tupinambá, Aimoré... Somos todos herdeiros e parceiros desses povos originários, os verdadeiros donos do Brasil!

“Todo dia, quando acordamos, damos bom dia pra terra e bom dia pro sol. Não é por causa deles que vivemos?” – explicou Angelo Kretan, cacique Kaingang. Angelo foi morto em fevereiro de 1980, vítima de uma emboscada no interior do Paraná, onde vivia com sua gente, resistindo à cobiça por suas terras.

O 19 de abril como “Dia do Índio” foi instituído por decreto de Getúlio Vargas, em 1943. Vargas, pressionado por Cândido Rondon, cumpria apelo do Congresso Indigenista Intermamericano, realizado no México 3 anos antes.

Estima-se em cerca de 3 milhões os nativos daqui, quando começou a colonização portuguesa. Hoje, são 817.963 pessoas, segundo o Censo de 2010 (esse ano o governo sem bom senso o inviabilizou). São 305 etnias, falando 270 línguas. Calcula-se que em torno de 80 grupos ainda estejam isolados, sem contato com os chamados “civilizados”. Uma riqueza!

Há 668 terras indígenas, mas muitas carecem de demarcação. Estão constantemente acossadas por grileiros, madeireiros, mineradores, agronegocistas com sua ânsia de lucros e ímpeto de mortes. Bolsonaro já disse que não assinará um centímetro de chão para esses brasileiro/as, que, segundo ele, “querem se tornar seres humanos” (!!!).

Entre os nativos, a incidência da Covid foi 7 vezes maior que na gente das cidades. Já se registraram mais de mil mortes de indígenas! A FUNAI, hoje, é chamada de “Funerária Nacional do Índio”. O desprezo, o preconceito e o abandono secular sobre esses nossos irmãos originários só faz crescer.

“Difícil na cidade um falar com outro. Ora, índio quando se encontra é uma festa, muita conversa, muita alegria, pouca pressa. Civilizado sempre com muita roupa. Não pega sol, não sobe em árvore, não toma banho de rio, não anda de noite admirando a lua” – espantava-se Umeru, líder bororo já falecido. Seu povo no Mato Grosso, que esteve à beira da extinção, hoje revitaliza-se, com muita luta e consciência.

A resistência indígena no Brasil é forte. Os “parentes” – como se tratam as distintas nações – lutam incansavelmente pelo seu direito à terra e à cultura, inscrito no art. 231 da Constituição Cidadã de 1988. Enquanto estive em Brasília, tive a honra de ser considerado “parente” desses irmãos brasileiríssimos.

Somos todos Kaingang, Bororo, Txucarramãe, Pataxó, Waimiri-Atroari, Kalapalo, Guarani, Guajajara, Tamoio, Carajá, Munducuru, Tupinambá, Aimoré… Somos todos herdeiros e parceiros desses povos originários, os verdadeiros donos do Brasil!

Mulheres indígenas em luta
Cerimônia de adeus (Xavante)

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