Papel da CIA na prisão de Lula deve ser investigado

por Paulo Moreira Leite

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Em visita oficial aos Estados Unidos, Jair Bolsonaro fez questão de visitar o QG da CIA, na Virgínia, um passeio incomum para presidentes.
Nesse contexto, o "presente da CIA" representa um passo a mais numa promiscuidade indesejável e perigosa -- e que por isso mesmo deve ser esclarecido.

Comentário de Dallagnol em diálogos liberados pelo STF envolve um fato grave, que precisa ser esclarecido, escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

Talvez a mais chocante revelação da Operação Spoofing seja uma frase de Deltan Dallagnol, o chefe da Força Tarefa. No momento em que a Justiça decreta a prisão de Lula, Dallagnol afirma: “Presente da CIA”.

Mesmo involuntariamente, Dallagnol abriu caminho para o que pode ser uma das mais esclarecedoras — e chocantes — informações sobre um lance decisivo em nosso retrocesso político atual.

Em abril de 2018, a prisão de Lula representou um marco divisório numa campanha eleitoral encerrada com uma cena impensável poucos meses antes: a vitória de Jair Bolsonaro, aliado assumido da Lava Jato, e a posse do carcereiro de Lula, Sérgio Moro, no Ministério da Justiça.

O fato decisivo na definição do pleito, sabemos todos, foi a prisão de Lula, que retirou o candidato do PT de uma campanha onde despontava como favorito.

Meses depois, quando o STF foi julgar um pedido de habeas corpus de Lula, que cobrava sua soltura com base na exigência constitucional do trânsito em jugado para o cumprimento de sentença condenatória, o debate sobre seus direitos havia mudado de natureza.

Impedir a presença de Lula na campanha tornara-se uma questão de Estado, o que explica a sugestão de intervenção militar apontada num tuíte onde o comandante Villas Boas ameaçava o STF.

Basta recordar o histórico de interferência da principal agencia norte-americana de inteligência em assuntos internos do Brasil e da América Latina para entender que afirmação de Dallagnol faz parte de um contexto maior.

Impossível contar a história de golpes de Estado de nossa época, sem fazer referência a potencia norte-americana cuja intervenção nem sempre envolveu o emprego de tropas — mas ações de inteligência, cooptação de possíveis aliados e organizações de fachada, comandadas pela CIA.

Foi assim no golpe de 1973 que derrubou Allende, no Chile, e também em 1964, no Brasil. A CIA participou do combate, prisão e captura de Che Guevara na Bolívia, embora a decisão final de executar o prisioneiro já dominado tenha sido assumida por um oficial boliviano, conforme entrevista ao El País.

A história da Lava Jato inclui cursos e treinamentos promovidos pelo Departamento de Justiça (DoJ). Em 2015, quando a Operação encontrava-se em seu início, o Ministério Publico Federal recebeu, em Curitiba, a visita de 17 cidadãos norte-americanos, ligados ao DoJ e ao FBI, evento que deu início a uma série de atividade comuns, no Brasil e nos Estados Unidos (Conjur, 1/07/2020).

Em visita oficial aos Estados Unidos, Jair Bolsonaro fez questão de visitar o QG da CIA, na Virgínia, um passeio incomum para presidentes.

Nesse contexto, o “presente da CIA” representa um passo a mais numa promiscuidade indesejável e perigosa — e que por isso mesmo deve ser esclarecido.

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