Assassinato de militante do MST no Paraná não é notícia na “grande” mídia

por Kátia Gerab Baggio

Arquivo MST/PR – Ênio Pasqualin é o quinto da esquerda para a direita.

Ênio Pasqualin, de 48 anos, um dos dirigentes do MST no Paraná, foi sequestrado em sua própria casa, ontem à noite, diante da família — no Assentamento Ireno Alves do Santos, na cidade de Rio Bonito do Iguaçu —, e assassinado. Seu corpo foi encontrado na manhã deste domingo com sinais claros de execução.

Acabei de procurar alguma notícia nos portais das corporações de mídia e não encontrei nada sobre o assassinato nos sites G1, globo.com e Folha de S. Paulo.

No UOL, apenas uma notinha em letra miúdas, com o título: “MST do PR afirma que líder foi retirado de casa e assassinado a tiros”, que redireciona para uma matéria do “Congresso em Foco”:

Ou seja, o sequestro e assassinato de um militante de um dos mais importantes movimentos sociais do país não é notícia para as “grandes” empresas de mídia brasileiras, a imprensa que se autodenomina “profissional”. Pelo menos até agora, não foi notícia.

Em portais como Brasil 247, a notícia foi publicada com destaque.

Segue a “Nota de falecimento” publicada no site do MST-PR:

“Direção Estadual do MST Paraná

É com profunda tristeza que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Paraná comunica o falecimento do companheiro Ênio Pasqualin. O militante foi executado a tiros no município de Rio Bonito do Iguaçu, onde vivia com a família, no Assentamento Ireno Alves dos Santos. Ênio foi retirado de sua casa por sequestradores na noite deste sábado, e seu corpo foi encontrado na manhã deste domingo nas proximidades do assentamento, com claras evidências de execução.

O companheiro iniciou sua militância no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no ano de 1996, em Saudade do Iguaçu/PR. No mesmo ano, mudou-se para o acampamento Buraco, em Rio Bonito do Iguaçu/PR, fazendo parte de uma das maiores ocupações de terra do MST, em 17 de abril de 1996, quando três mil famílias Sem Terra ocuparam o latifúndio da Giacomet Marodin, atual madeireira Araupel.

De coordenador de base a dirigente estadual do MST Paraná, Ênio participou de diversas atividades e ocupações de terra na região de Rio Bonito do Iguaçu. Ênio Pasqualin sempre foi um camponês aguerrido na luta.

Em Rio Bonito do Iguaçu, Ênio e sua família criaram raízes, assentados no Assentamento Ireno Alves dos Santos no final de 1996. Ele continuou ajudando a construir a luta por Reforma Agrária, seja no âmbito da produção e na organização dos assentados quando foi Presidente da Central de Associações Comunitárias do Assentamento Ireno Alves dos Santos (Cacia) ou quando ajudou os filhos e filhas dos assentados e assentadas a se organizarem para continuar a luta pela terra na extensa área da Araupel.

No dia 15 de outubro, Ênio comemorou seus 48 anos de vida junto a sua família e hoje, 10 dias após seu aniversário, deixa sua família de forma inaceitável. Tiraram a vida de um pai, de um marido, deixando suas duas filhas, o filho e a esposa com uma dor inexplicável.

À família e aos companheiros e companheiras enlutados os mais profundos sentimentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Cobramos o esclarecimento dos fatos, a investigação e prisão dos envolvidos.

Aos nossos mortos nenhum minuto de silêncio, mas uma vida toda de luta!

Rio Bonito do Iguaçu/PR, 25 de Outubro de 2020.

Direção Estadual do MST/PR”


Ênio Pasqualin – foto publicada pela professora Kátia

Sobre a professora

– Kátia Gerab Baggio Possui Bacharelado (1986) e Licenciatura (1986) em História pela Universidade de São Paulo (USP), Mestrado (1992) e Doutorado (1999) em História Social, também pela USP. É Professora Associada 4 do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde leciona desde 1994. Na UFMG, coordena o Núcleo de Pesquisa em História das Américas – NUPHA (fundado em 2017), e participa do Projeto Brasiliana: Escritos e Leituras da Nação, coordenado pela Profa. Dra. Eliana de Freitas Dutra. Foi professora visitante, através do Programa Escala da AUGM, na Universidad Nacional de Tucumán (UNT) (2007), Universidad Nacional de La Plata (UNLP) (2008 e 2013), ambas na Argentina, e Universidad de Santiago de Chile (USACH) (2011). Foi presidente da Associação Nacional de Pesquisadores e Professores de História das Américas (ANPHLAC), gestão 2000-2002, e vice-presidente da mesma Associação (gestão 2014-2016); coordenadora do Curso de Graduação em História da UFMG (dez. 2001- jan. 2006); coordenadora do Programa de Pós-Graduação em História da UFMG (2010-2012) e vice-coordenadora do mesmo Programa (2016-2017); chefe pro tempore (2014) e vice-chefe (2006-2009 e 2014-2016) do Departamento de História da UFMG. Realizou os seguintes estágios de Pós-Doutorado: no Departamento de História da USP (2009-2010), sob a supervisão da profa. Dra. Maria Ligia Coelho Prado; no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), sob a supervisão da profa. Dra. Angela de Castro Gomes (agosto 2017-fevereiro 2018); e junto ao Centro de Investigaciones sobre América Latina y el Caribe (CIALC) da Universidad Nacional Autónoma de México – UNAM (março-junho 2018), sob a supervisão da profa. Dra. Regina Crespo. Atua na área de História, com ênfase em História Latino-Americana e Caribenha nos séculos XIX a XXI, trabalhando principalmente com as seguintes temáticas: História Intelectual na América Latina; circulação de ideias, intercâmbios e viagens intelectuais entre Argentina, Brasil e México; latino-americanismo; pan-americanismo; nacionalismos; neoliberalismo na América Latina; direitas ultraliberais nas Américas; Caribe Hispânico Insular; identidades e alteridades.
 (Texto informado pela professora, reproduzido da plataforma Lattes)


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