Alegrai-vos, Ele ressuscitou e vive entre nós!

por Carlos Serrano

Reprodução - internet
Cristo quer a partilha, não a acumulação, não o individualismo. Papa Francisco lembrou em sua catequese sobre a segunda parte do Pai-Nosso os que padecem da fome.

Escrevi esta mensagem na Páscoa de 2019. Não havia voltado ao Facebook. Apesar da passagem do tempo, creio que está ainda actual. Desejo aos amigos uma Páscoa Feliz e, principalmente, muita saúde e amor.

Alegrai-vos, Ele ressuscitou e vive entre nós!

Meus queridos irmãos, hoje é Páscoa, a alegria da Redenção. Hoje é a culminância do mistério, o selar final da Nova Aliança que nos liberta. Não comemoramos um evento ocorrido há dois mil anos, mas uma realidade que existe entre nós, todos os dias, e que se renova. Hoje, Cristo venceu a morte, mas não a venceu para mostrar o Seu poder, pois como Deus isto não é surpreendente. Ao vencer a morte Ele nos mostrou o caminho e nos ofereceu o dom da vida e a via de nossa libertação. Como não somos Deus, mas apenas Suas criaturas imperfeitas, não podemos vencer a morte física, mas podemos renascer enquanto seres, enquanto comunidade, enquanto povo, enquanto mundo. Esta é a Sua promessa: um Mundo Novo. Esta é a grande alegria que nos traz o Evangelho, como lembra este verdadeiro milagre do Espírito Santo, Sua Santidade, o Papa Francisco, ao batizar sua principal encíclica de Evangelii Gaudium.

Ao contrário das seitas da teologia do mercado e de certa Igreja necrófila, que se fixam na morte como redenção, Cristo não é morte, não é tristeza, nem autocomiseração, penitência ou flagelo do corpo. Como nos ensina Frei Raniero Cantalamessa, Capuchinho e Pregador da Casa Pontifícia, nos três primeiros séculos de nossa Igreja não se dividia em três dias a celebração da Páscoa, mas se fazia uma única Vigília Pascal “durante a qual se celebrava a morte e a ressurreição de Jesus, ou seja, não se comemorava a morte e a ressurreição como fatos distintos e separados; pelo contrário, comemorava-se a passagem de Cristo da morte para a vida”.

Ele é Vida e Veio para que tenhamos “… vida, e vida em abundância” (João 10:10). Afinal, “…Deus não é Deus de mortos, mas sim de vivos, pois para Ele todos vivem” (Lucas, 20:38). Essa abundância não é de bens materiais, não é a da riqueza que tira vidas e rouba futuro aos oprimidos do mundo, é a abundância do amor e da partilha. Pois, ao contrário do que afirmam os falsos profetas da teologia da prosperidade, filhos do capital, não de Deus, “certamente, é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus” (Lucas, 18:25). Como ensina Frei Cantalamessa, a “…Páscoa é a festa da reviravolta desejada por Deus e realizada por Cristo para a humanidade. É a festa dos pobres, excluídos e escravos na nossa sociedade!”

Num mundo cada vez mais devastado pelo egoísmo e individualismo, Cristo nos ensinou, através de seu exemplo e de sua oração, que o “eu” é uma ilusão, uma ilusão maléfica. Como ensina Sua Santidade, “na oração do Pai-Nosso, há uma palavra que brilha pela sua ausência: uma palavra que em nossos tempos – como talvez sempre – todos consideram importante: a palavra ‘eu’”. Pois, nesta, “até as necessidades mais elementares do homem – como ter alimento para saciar sua fome – são todas feitas no plural. Na oração cristã, ninguém pede o pão para si, mas o suplica para todos os pobres do mundo”.

Cristo quer a partilha, não a acumulação, não o individualismo. Papa Francisco lembrou em sua catequese sobre a segunda parte do Pai-Nosso os que padecem da fome.

“Quantas mães e pais, ainda hoje, vão dormir com o tormento de não ter no dia seguinte pão suficiente para os próprios filhos! Imaginemos esta oração rezada não na segurança de um cómodo apartamento, mas na precariedade de um quarto onde as pessoas se adaptam, onde falta o necessário para viver. As palavras de Jesus assumem uma força nova”.

Aqueles que não entendem esta mensagem, que usurpam o que foi dado por Deus à Humanidade, não sendo ninguém superior na graça de seu uso, contraria a Promessa de Cristo. Como diz Sua Santidade, “era um pão entregue a toda a humanidade e, ao invés, foi consumido somente por alguns: o amor não pode tolerar isto. O amor de Deus também não pode tolerar este egoísmo”. E ele acrescentou, para o horror de muitos que se dizem cristãos, mas que negam Cristo em seus actos, o “alimento não é propriedade privada, vamos colocar isso na cabeça, mas providência a compartilhar, com a graça de Deus”.

Cristo nos oferece a redenção, e como anunciava o profeta Isaías (29:20), “será o fim do tirano e do malvado, o zombador desaparecerá e todos os de olhos inclinados para o mal serão eliminados”. E sua Vida, sua Nova Aliança que se estende não mais a um único povo, mas a todos os povos, é construída sob uma única base, o amor, pois Ele disse “… o meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como Eu vos amei” (João 15:12). Devemos nos amar e olhar o mundo com a pureza das crianças, pois “quem não receber o Reino de Deus como uma criança, de maneira alguma entrará nele!” (Lucas, 18:17).

Aqueles que não amam os pequenos, os pobres, os oprimidos, e que fazem da apologia do ódio o seu programa de vida, que carregam não a Cruz e o Coração como símbolos, mas com suas mãos constroem arminhas; que não se fazem puros como crianças, mas comemoram a morte destas, este não está com Cristo, mesmo que se batize no Rio Jordão, este está com o inimigo. Diz o Vigário de Cristo, Papa Francisco,

“E quantas vezes nós vemos o escândalo daquelas pessoas que vão à igreja, estão lá todo o dia, ou vão todos os dias, e depois vivem odiando os outros e falando mal das pessoas. Isto é um escândalo. Melhor não ir à igreja. Viva assim como ateu. Mas se você vai à igreja, viva como filho, como irmão e dá um verdadeiro testemunho. Não um contratestemunho”.

Porém, acima de tudo, Deus encarnado é mais do a Palavra viva, é o Verbo encarnado, pois é um apelo permanente à acção, pois a vida é agir, não apenas contemplar. Como ensinou Sua Santidade Papa Francisco em sua catequese sobre o Pai-Nosso,

“Rezando “seja feita a vossa vontade” não somos convidados a abaixar servilmente a cabeça, “como se fôssemos escravos”. “Deus nos quer livres e Seu amor nos liberta.” O “Pai-Nosso”, de fato, é a oração dos filhos que conhecem o coração de seu pai e estão certos do seu desígnio de amor. Ai de nós se, pronunciando essas palavras, levantássemos as costas em sinal de rendição diante de um destino que nos repugna e não conseguimos transformar. Pelo contrário, é uma oração repleta de confiança em Deus que quer para nós o bem, a vida, a salvação. Uma oração corajosa, inclusive combativa, porque no mundo existem muitas, demasiadas realidade que não são segundo o plano de Deus. “Ele quer a paz.””

Por isso, a mensagem de Jesus para nós hoje, para todos os que andam no vale de lágrimas da miséria, da perseguição política e social; aos refugiados e imigrantes; aos sem-abrigos (sem-tetos) e sem-terras; aos doentes e desamparados; aos desempregados e aos que têm roubados o seu direito à reforma (aposentadoria) e à velhice digna; [aos que veem negado o acesso à saúde e às vacinas;] aos que têm seu ambiente destruído pelas grandes corporações; aos pescadores que vêem seus mares envenenados por gananciosos; para todos que como eu se encontravam desesperançados com a vida e o mundo, é que pela ação comum de todos nós, trilhando os caminhos da luta e da vida de Jesus, podemos trazer o Seu Reino e realizar Sua promessa de amor e de vida em abundância, pois nosso é o Reino dos Céus! Nós os revolucionários encontramos no Evangelho não a negação de nossa luta e de nossa esperança, mas a base última para nossa ação. Como ensina o Santo Padre,

“Jesus coroa de felicidade uma série de categorias de pessoas que em seu tempo – mas também no nosso! – não eram muito consideradas. Bem-aventurados os pobres, os mansos, os misericordiosos, os humildes de coração… Esta é a revolução do Evangelho. Onde está o Evangelho há uma revolução. O Evangelho não deixa quieto, nos impulsiona, é revolucionário”.

Talvez por isso o Santo Padre tenha afirmado ao jornal La Reppublica que

“Já foi dito muitas vezes e minha resposta sempre foi que, no mínimo, são os comunistas que pensam como cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde são os pobres, os fracos, os excluídos, os que decidem. Não os demagogos, nem os barrabás, mas o povo, os pobres, que têm fé no Deus transcendente ou não, são eles que devemos ajudar a obter a igualdade e a liberdade”.

Que com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo tenhamos todos uma Feliz Páscoa! Que renasçamos em Cristo e que um Mundo Novo nasça!

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