A Páscoa e Jesus

por Elaine Tavares

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Jesus é otimista com o humano. Acredita que essa é uma raça que vale a pena. Foi embora agora, por volta das nove horas, quando a casa começou a despertar.

A semana santa sempre foi um tempo de muitas celebrações na minha casa. Minha mãe era católica praticante e seguia à risca todos os rituais. Então, desde o domingo de ramos a casa já começava a se preparar para o grande dia, o qual Jesus ressurgiria da tumba, vencendo todo o mal e toda a corrupção. Na sexta-feira santa, dia do assassinato na cruz, o dia era de silêncio. A mãe tampava os espelhos e não se podia ouvir música. O tempo era de consternação e sempre acompanhávamos a procissão do “senhor morto”, que acontecia no centro de São Borja, saindo da Catedral. A cena daquele homem morto, ensanguentado, me tomava o coração de angústia. Demorei a entender porque tiveram aqueles homens que torturar de maneira tão horrível um cara que só pregava o amor.

Minha mãe, com sua lucidez cotidiana, resolvia o mistério: “Por isso mesmo, porque o amor é coisa que incomoda demais”.

E era isso mesmo. Jesus era muito fora da casinha. Comia com as putas, com os ladrões, com os mendigos. Trabalhava no sábado, questionava as leis que oprimiam as gentes, anunciava um reino que não era desse mundo. Andarilho, sonhador, falastrão, amigo, raivoso com os vilões. Capaz de se deixar ficar em frente ao lago observando o movimento das águas e dos peixes. Dizia para as gentes que todos eram iguais, que não havia esse lance de não falar com os estrangeiros, que não havia impureza em comer quando se tinha fome, e que não se devia comercializar a fé. E mais, Jesus repartia. Os bens, a comida, a alegria, a responsabilidade, o medo.

Era deveras perigoso. Por isso, esse tipo me encantava quando em criança.

Houve um tempo, depois que cresci, que duvidei de seu amor. Quando comecei a ler sobre os horrores causados pela cristandade, na África, na América, na Europa com a Inquisição. Mas, foi de novo minha mãe quem me chamou à razão. “Não seja boba, Jesus não tem nada a ver com isso. Isso é coisa dos homens”.

Batata. Jesus deve ter derramado lágrimas de sangue nesses tempos de profunda escuridão, quando em nome dele, e carregando sua cruz, alguns homens impuseram o terror. Na sua impotência, lá no céu, ele deve ter sofrido. Até porque, a cruz, esse símbolo abjeto de tortura ao qual eram submetidos os criminosos do império romano, não deveria ser o que o define. A cruz significa que Jesus escolheu o caminho da dor humana, não para eternizá-la, mas para suprimi-la. Logo, ela deve ser símbolo de libertação e não de dor.

Por isso mesmo tem a Páscoa, essa hora luminosa de ressurgir dos mortos, de sair da tumba, de reviver. O livro sagrado conta que naquele domingo depois do assassinato, quando todos ainda choravam a morte de Jesus, apareceu uma espécie de anjo à Maria Madalena que disse: “por que procurais entre os mortos aquele que vive?”

E foi ela, Madalena, a que compreendeu que a vida é mais que corpo, que o amor é chama que arde sem se ver, que permanece, que subverte, que empurra, que inspira. Jesus não estava entre os mortos porque vivia em cada um que tinha sido tocado com sua ternura. E tanto que ainda anda por aí, apesar de todas as leituras equivocadas.

Nesse domingo de Páscoa, de um outono fresquinho, na minha ilha, acordei cedo para matear com Jesus. São os momentos em que recebo, com ele, meus outros mortos bem amados: minha mãe, meu avô Dionísio, minha tia Tereza. Mateamos e conversamos, porque seguimos, afinal, todos vivos. Nessa manhã falamos do que anda passando no Brasil e na nova inquisição que caminha por aqui. Quando em nome de Jesus tantas barbaridades vão sendo cometidas. E ele balança a cabeça, triste. Sabe que lá em cima não pode fazer nada. Mas, tem esperanças na raça. Disse-me que andou por esse mundo, que se aconchegou em braços humanos, que vivenciou a alegria, que sentiu a grandeza de algumas almas, que tomou vinho, que balançou nos barcos cheios de trabalhadores amorosos. E me segredou que seres humanos há que valem uma vida, e uma morte. Nossa tarefa é encontrá-los e com eles caminhar. Disse-me também que a jornada do amor é coletiva, precisa ser feita em comunhão.

– Sempre há um traidor, Jesus. Sabes bem disso.
– Sim, mas também há os que sobrevivem e seguem disseminando essa maravilha que é viver nesse imenso jardim.

Jesus é otimista com o humano. Acredita que essa é uma raça que vale a pena. Foi embora agora, por volta das nove horas, quando a casa começou a despertar.

– O mal é poderoso, mas as pessoas unidas no amor também. Viver é essa batalha. É como a luta de classes, né? – e piscou para mim, sorrindo.

– Nietzsche diria que o rebanho é fraqueza – rebati.

– Nietzsche estava certo. O rebanho sem cabeça é fraco, precisa de um pastor. As pessoas que pensam, não. Com esses se anda.

Assenti. “É o tal do pensamento crítico, né?” Rimos. E ele se foi, com a mãe, a tia e o vô. E a casa despertou, e a vida brotou. É Páscoa!

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