Sobre a Série “Cidade Invisível” de Carlos Saldanha

por Thomas de Toledo

Reprodução - internet
Cidade Invisível não é perfeita, mas é revolucionária. Ela abre um novo universo para explorar a nacionalidade brasileira em gêneros já consagrados mundialmente. Para se entender a profundidade dos temas trabalhados na série, ficam dois livros como sugestão: O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro e Geografia dos Mitos do Brasil de Luis da Câmara Cascudo.

A série Cidade Invisível de Carlos Saldanha, produzida pela Netflix, segue entre as Top 10 em vários países levando a cultura brasileira aos corações e mentes no exterior. Sim, ela tem vários problemas. Mas nem de longe isso diminui o brilho de um projeto que abriu uma picada na mata – ele repaginou o gênero do realismo fantástico nacional, tratando personagens do folclore brasileiro como super-heróis.

Algumas séries estrangeiras já têm trabalhado essas características. Exemplos como Deuses Americanos (Estados Unidos), Descoberta de Bruxa (Inglaterra) e Equinox (Dinamarca) sinalizam pra esse caminho, mas cada qual com sua especificidade nacional. Assim, Cidade Invisível projeta esse gênero no Brasil. Ele tem potencial de abrir um novo universo cinematográfico como aconteceu com Star Wars, Harry Potter e Senhor dos Anéis. Cidade Invisível coloca os personagens do folclore brasileiro numa sintonia adulta, num patamar seguinte ao da romântica visão infantil do sítio do Pica Pau Amarelo de Monteiro Lobato. Assim, os elementos mágicos, característicos desse gênero, mesclam pajelança com cultos afrobrasileiros e crendices populares de forma equilibrada e convincente.

A série só teve até agora uma temporada com 7 episódios. Em termos do andamento, Cidade Invisível demora um pouco para pegar ritmo, mas vai crescendo e os últimos episódios mostram pra que veio.

Tecnicamente, dentre os aspectos positivos, está a fotografia e algumas tomadas de câmera bastante marcantes. Efeitos especiais são bons e em geral convencem. Outros nem tanto, provavelmente por falta de recursos por ser uma primeira temporada. Isso aconteceu inclusive em séries de apelo massivo como The Witcher e Cursed: a Lenda do Lago.

O roteiro tem por partida uma investigação policial, algo que já virou quase um clichê da produção de live action nacional. Só na Netflix, temos Bom Dia Veronica, O Mecanismo e Onisciente. Ou seja, pegou um fio da meada saturado. Mas quanto mais a série se distancia do gênero policial, mais ela se aproxima da realidade fantástica e de super-heróis. Isso vai acontecendo à medida que se chega no clímax.

Os prólogos dos episódios contam como cada entidade surgiu, mas de forma superficial, deixando pontas abertas para serem exploradas em novas temporadas. Algumas mortes quebraram o clima e personagens carismáticos foram rapidamente ceifados, o que pode ser corrigido de várias formas numa nova temporada. Algumas atuações foram péssimas, como, por exemplo, uma determinada atora mirim. Mas Alessandra Negrini como Cuca, Marco Pigossi como o protagonista Eric e Fabio Lago como Curupira foram os destaques. Esses últimos passam por suas próprias jornadas do herói, alcançando o apogeu nos dois últimos episódios. Vale destacar o retorno do Curupira com uma atuação visceral de Fabio Lago, que ficará marcada na história do audiovisual brasileiro. Outros personagens extremamente carismáticos foram Jimmy London como Tutu, Wesley Guimarães como Saci e Jéssica Córes como Iara.

Com relação à brasilidade, a série recebeu críticas por se passar no Rio de Janeiro, mesmo trabalhando alguns mitos da Amazônia. Isso pode ser facilmente resolvido nas temporadas futuras. No caso da primeira, localizar todos em apenas um lugar serviu para dar uma unidade aos personagens que agora formaram uma espécie de Liga da Justiça ou Vingadores tupiniquim. Nada impede com que daqui pra frente possam expandir suas ações para outros cantos do Brasil.

Outro tema que vem sido questionado é o da pouca representatividade indígena.

Ora, em cada aldeia de cada etnia, as lendas são contadas de forma diferente. Em muitos casos, elas se mesclam às cosmogonias e mitologias locais. A versão apresentada, portanto, pode não ser exatamente a mesma de uma etnia ou de uma região. Ela é, na verdade, uma adaptação à televisão e, por conseguinte, tem que ser desenvolvida nessa linguagem. Assim como não se espera que se aprenda de forma literal a mitologia nórdica assistindo o Thor da Marvel, a mesma compreensão se deve ter com Cidade Invisível.

Sem dúvidas que existe um desequilíbrio entre a quantidade de lendas oriundas dos povos originários com a pequena presença de atores indígenas no elenco. Mas isso pode ser melhor trabalhado desde que de forma orgânica e com atores que realmente tenham espírito para o papel. A produção pode resolver essa questão na próxima temporada.

Por último, como tudo o que é produzido nacionalmente e que é admirado no exterior, Cidade Invisível desperta em boa parte dos brasileiros um sentimento contraditório. Por um lado, desenvolve um orgulho de ver aqueles contos de infância se tornarem adultos e os personagens folclóricos de nosso cotidiano ganhando o mundo. Por outro, o complexo de vira-latas faz sentir uma vergonha inexplicável que faz os críticos focarem nos problemas em vez de valorizar o positivo.

Por isso há que se destacar um ponto. Por mais que Cidade Invisível não se proponha a ser uma série política, ela vem num contexto em que qualquer gesto de defesa da nacionalidade é uma forma de resistência à recolonização do Brasil em curso. Também mescla o folclore com a temática ambiental ao colocar no centro a resistência de uma vila de moradores contra a urbanização forçada e a consequente destruição da floresta. Assim, o antagonista é um capitalista que quer expulsar os moradores para executar seus empreendimentos, como seu pai fizera no passado, transformando-o numa entidade maligna. Já o protagonista é o esposo de uma antropóloga assassinada por unir os moradores para resistirem; ele continuará a luta da falecida, agora se somando às entidades folclóricas.

É isso então. Cidade Invisível não é perfeita, mas é revolucionária. Ela abre um novo universo para explorar a nacionalidade brasileira em gêneros já consagrados mundialmente. Para se entender a profundidade dos temas trabalhados na série, ficam dois livros como sugestão: O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro e Geografia dos Mitos do Brasil de Luis da Câmara Cascudo.

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