Do Brasil ao Brazil, rumo ao segundo período colonial

por Thomas de Toledo

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Ou seja, o Brasil do século XXI vai caminhando para retornar às origens coloniais. O neoliberalismo na forma ultraliberal está criando um país distópico, paraíso aos ricos e inferno aos pobres.

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O fechamento das fábricas da Ford explicita um projeto que segue a todo vapor. Se juntarmos as pontas das contrarreformas desde o golpe de 2016, entenderemos que o plano é simples: tornar o país um fazendão ao agronegócio, uma canteira para extrair riquezas e um paraíso fiscal ao rentismo da agiotagem financeira internacional, sem papel algum para a indústria. Portanto, a única ciência que interessa é a que melhora o extrativismo, a agricultura e a pecuária, com todo o resto, principalmente as ciências humanas por formar consciências críticas, sendo dispensável.

No campo, o plano é passar boiada por cima das áreas de proteção ambiental e das reservas indígenas, ao mesmo tempo em que se entrega o subsolo às mineradoras e a água às multinacionais. Nas cidades, pretendem segregar abertamente pobres de ricos. De um lado, a ideia é ser um país onde milionários e bilionários morem nos Estados Unidos ou na Europa e só venham ao Brasil para trazer amiguinhos gringos pra passar as férias nos condomínios de luxo em lugares paradisíacos. Do outro lado, querem uma guerra que promova a limpeza étnica nos morros e periferias. Para isso, armam as milícias e empoderam os traficantes, garantido a imunidade às igrejas vendedoras de fé enganosa para lavarem o dinheiro do crime organizado.

Depois das reformas trabalhista e previdenciária, do desmonte do SUS e da educação pública via “teto de gastos”, caminha-se para a quase extinção da classe média que ocupa a franja intermediária. Além do fim do emprego industrial, o funcionalismo público está sendo praticamente extinto e mantido apenas nas carreiras de privilégio como juízes, militares e diplomatas que salvaram suas super-aposentadorias. O que restar de classe média, querem que seja uberizada, vivendo de bicos para oferecer mão de obra barata ao setor de serviços inchado. Com medo de perder micro-privilégios, passam a sustentar ideologicamente o sistema que mantém uma das maiores desigualdades do mundo.

Aí perguntam: por que Bolsonaro não cai? Pelo mesmo motivo que Temer não caiu: ambos aceitaram fazer o serviço sujo desse plano, que é aprovar todas as reformas impopulares que levam a isso. Depois que o estrago for completado, colocam um Luciano Huck da vida para limpar a cara com assistencialismo barato, sem mudar nada sob o pretexto de que o está feito, está feito.

Nesse caso, a esquerda que deveria liderar a resistência está acomodada no sofá de casa sob a hashtag FiqueEmCasa. Passam o tempo assistindo pela Globo News cada coisa que acontece nos Estados Unidos. Colocam fotos nas redes sociais de delegacias incendidas pelo movimento negro de lá, enquanto a extrema direita daqui delira com supremacistas brancos que invadem o capitólio. Um lado tem o mito e o outro tem o beato. Duas torcidas organizadas que perderam as eleições municipais de 2020, mas que acreditam que vencerão em 2022, cada qual com seu messias imbatível. Na polarização binária entre supostos extremos, quem está levando o bolo é a centro-direita que supostamente corre por fora, mas que é tão comprometida com esse projeto neocolonial quanto a extrema-direita neoliberal e, de certo modo, a própria a esquerda social-liberal.

Ou seja, o Brasil do século XXI vai caminhando para retornar às origens coloniais. O neoliberalismo na forma ultraliberal está criando um país distópico, paraíso aos ricos e inferno aos pobres. A forma de reverter isso é ter um projeto de desenvolvimento nacional, que fortaleça a indústria, que produza ciência, tecnologia e inovação, que reconstitua o serviço público e que garanta a ampla distribuição da riqueza social.

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