Comunismo e o Amor nos Tempos do Liberalismo

por Bárbara Mçs

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O amor será livre quando as pessoas tiverem a liberdade de amar quem quiserem e ter os filhos que quiserem, sem que isso se interligue com contas no banco, hipotecas de casa, valor da renda, cálculos de heranças, ou capital social.

Quando preciso de explicar a alguém a diferença entre marxismo e liberalismo costumo usar a metáfora duma mesa de bilhar. É um bocado pateta mas é útil, e é mais ou menos assim: liberalismo vai-te explicar as qualidades de cada bola, as suas diferentes cores, os seus números e localizações; marxismo vai-te explicar o processo histórico que levou a bola x a bater na bola y, fazendo com que esta caia no buraco z. Ou seja, liberalismo vai-se focar nos objectos individuais, marxismo vai-se focar nas relações entre eles, nos processos que os movem e transformam.

Por exemplo, diz o Engels sobre a dialéctica marxista:

“Quando nos detemos a reflectir sobre a natureza, sobre a história humana, ou sobre nossa própria atividade intelectual, deparamo-nos, em primeiro plano, com a imagem de um infinito emaranhado de relações e reações, permutações e combinações, em que nada permanece o que era, como era, nem onde estava, mas tudo se move e se transforma, tudo nasce e tudo morre. Vemos, antes de mais, a imagem de uma totalidade, com as suas partes individuais ainda relegadas para um plano de fundo; observamos os movimentos, as transições, as conexões, mais do que as coisas em si, que se movem, se combinam, e se interligam. … tudo é e não é, pois tudo é fluido e está em constante mudança, constantemente emergindo e perecendo.”

E diz a seguir sobre a metafísica, que se aplica ao liberalismo:

“Para o metafísico, as coisas e as ideias são objetos de Investigação isolados, fixos, rígidos, focalizados um após o outro e separadamente, como algo dado e perene. Pensa só em antíteses, sem meio-termo possível; para ele, das duas uma: sim, sim; não, não; o que for além disso, sobra. Para ele, uma coisa existe ou não existe; um objeto não pode ser ao mesmo tempo o que é e outro diferente. O positivo e o negativo excluem-se em absoluto. A causa e o efeito revestem também, a seus olhos, a forma de uma rígida antítese. À primeira vista, esse método discursivo parece-nos extremamente razoável, porque é o do chamado senso comum. Mas o próprio senso comum — personagem multo respeitável dentro de casa, encerrado dentro de quatro paredes — vive peripécias verdadeiramente maravilhosas quando se aventura pelos caminhos amplos da investigação. E o método metafísico de pensar … tropeça sempre, cedo ou tarde, nos seus limites, a partir dos quais se converte num método unilateral, limitado, abstrato, que se perde em insolúveis contradições, pois, absorvido pelos objetos concretos, não consegue perceber o seu devir; preocupado com sua existência, não atenta em sua origem nem em sua caducidade; obcecado pelas árvores, não consegue ver o bosque.”

No Capital, o Marx explica que o liberalismo que tudo mercantiliza substitui relações imateriais humanas por relações objectificadas, quantificadas, mediadas por dinheiro e por isso coisificadas. Para o liberalismo, pessoas são livres quando atingem igualdade legal no mercado e se encontram enquanto indivíduos autónomos para trocar entre si, de igual para igual. Eu preciso de cebolas e tenho batatas; tu precisas de batatas e tens cebolas; voilà, a mão invisível regula as minhas necessidades e as tuas, temos contracto social. O problema é que por de trás desta interacção entre supostos iguais existem desigualdades sociais, poderes de compra diferentes, propriedade privada, e existe o “hidden abode” da produção, onde batatas e cebolas se criam à custa de exploração.

Mas como o liberalismo não vê para além da superfície e do indivíduo autónomo não consegue entender que o mecanismo da troca está assente num vasto processo histórico de produção de desigualdade. Não consegue entender que x batatas = y cebolas = z euros não corresponde a um sistema livre mediado por equivalências justas, mas sim a um processo vil de acumulação de mais-valia. Não consegue sequer entender que por de trás de um mundo absolutamente quantificado em dinheiro, likes, notas, kilos, etc. está a alienação universal de pessoas que só se encontram por via das coisas, ou seja, onde a sensualidade e o erotismo são impossíveis.

Para o liberalismo, o amor liberta-se quando se emancipa de quem o faz, quando é alienado dos seus produtores e objectificado em performances standardizadas, e portanto mercantilizáveis. O amor liberta-se quando eu puder estar com quem quiser e quando quiser liberta de vínculos. Quanto mais escolhas de parceiros eu tiver, mais livre sou. Quantas mais posições sexuais eu dominar mais prazer sinto. Quanto mais desvinculada do outro eu estiver mais me satisfaço e Ayn Rand teve os melhores orgasmos da história. Obcecado com sexo alienado, o liberalismo não consegue ver o erotismo.

O ponto crucial que falta aqui entender é que por de trás desta desmultiplicação das escolhas está um processo histórico de mercantilização do sexo feminino que não é minimamente abalado por elas. É este o “hidden abode” do patriarcado que o liberalismo não consegue ver nem quer. O patriarcado serve para expropriar a reprodução social e geracional da força de trabalho, bem como da propriedade privada. E fá-lo através da privatização das mulheres pelos homens, no seio da família. Fá-lo dando ao homem a escolha no mercado de comprar uma mulher, equivalendo sexo a dinheiro, seja por via do casamento (partilhando o seu salário), ou da prostituição (comprando um serviço). Isto é conseguido através da divisão sexual do trabalho que historicamente impede as mulheres de terem independência económica. Nenhuma mulher grávida é economicamente independente — não pode trabalhar, precisa que cuidem dela, e se não cuida o estado, cuida a família, i.e., o marido a troco de sexo. Isto causa uma desigualdade estrutural em todas as relações heterosexuais que reduz, nem que seja momentaneamente, a relações amorosas a prostituição social. Até que se socializem as relações de reprodução, o sexo é estruturalmente mercantilizado e essa mercantilização é a chave que encerra o patriarcado.

Diz o Badiou num vídeo algures que “o amor é o comunismo minimal, o comum a dois.” E diz a Kollontai em vários sítios que a condição de base para a igualdade sexual é a sua desmercantilização. Amor livre não é amor liberto de compromissos naquele sentido liberal segundo o qual também o proletário é livre de qualquer vínculo de pertença (livre de propriedade e livre para vender a sua força de trabalho). Amor livre não pode ser abstraído de quem o faz, objectivado em produtos e trocado por swipes, likes, jantares, dotes, ou euros. É uma relação sensual e dialéctica, de intimidade e conhecimento do outro, de superação da alienação individual pelo erotismo. O sexo não é uma coisa — não é standardizável e quantificável à partida — é uma relação que acontece *entre* indivíduos, e portanto é contextual e absolutamente dependente de quem o faz.

O amor será livre quando as pessoas tiverem a liberdade de amar quem quiserem e ter os filhos que quiserem, sem que isso se interligue com contas no banco, hipotecas de casa, valor da renda, cálculos de heranças, ou capital social. Será livre quando a maternidade não contiver a ameaça latente da destituição e da bancarrota, porque nenhuma mulher grávida é economicamente independente. E será livre também quando homens deixarem de poder comprar companheiras e acompanhantes com dinheiro, jantares, sucesso, e casamentos. Aí sim, haverá a possibilidade para falarmos numa cultura (hetero)sexual progressista, e de uma masculinidade que admite coisas como a vulnerabilidade (que as mulheres dizem que querem mas estatisticamente sabe-se que não), ou de uma feminilidade que admite coisas como a inteligência (que os homens dizem que querem mas estatisticamente sabe-se que não). Amor livre no liberalismo não há.

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