Big Brother: A Ideologia da Meritocracia Neoliberal

por Thomas de Toledo

Reprodução - internet
Assim o BBB foi geniosamente montado. Para fazer a ideologia do identitarismo, da meritocracia e do individualismo se mesclarem garantindo a solidificação dos pilares do pensamento neoliberal.

Big Brother é uma peça de teatro com roteiro previamente definido cujo objetivo é a massificação ideológica do neoliberalismo. Ele expressa o espírito do individualismo e da guerra de todos contra todos. Coloca humanos num zoológico onde serão observados, julgados e poderão manifestar o que têm de pior em si. Onde apenas um será milionário. Como no sistema capitalista.

Lá, os participantes não desenvolverão a solidariedade, mas a competição. O objetivo é eliminar todos e sobrar apenas um. O “melhor” é aquele que manipula sentimentos dos participantes e telespectadores afim de se dar bem. Os “piores” são os que explicitam o que não for politicamente correto a um grupo identitário capaz de mobilizar gente suficiente pra “fuzilá-lo” no paredão da cultura do cancelamento.

Por que a onda é colocar mulheres, negros e gays? Por que esses nichos de militância organizada respondem ao chamado da Globo. Mesmo que sejam críticos ao sistema, chegando lá acabam por reproduzir a ideologia neoliberal de que a meritocracia dá a todos a mesma oportunidade. Ou seja, o BBB faz o sistema capitalista neoliberal parecer “inclusivo”. Afinal, ele “dá a chance” de uma pessoa que veio de baixo, seja de uma favela ou uma minoria, se tornar milionária. Mas somente um, tá bom?! Afinal, o sistema tem que fazer com que a pessoa mostre seu mérito e prove perante o olho de todos que isso é justiça social. Ou seja, “ele obedeceu o sistema e fez por merecer” enquanto os outros fracassaram.

Aí, a Rede Globo aparece como um exemplo de democracia racial, de empoderamento feminino e de doadora de voz às sexualidades que finalmente têm uma TV que lhes dá a tão sonhada visibilidade. Mas o que acaba por acontecer é que em vez desses grupos identitários se mobilizarem por causas coletivas justas, passam a não se guiarem para construírem uma utopia que emancipe toda a sociedade. Pelo contrário, são usados por oportunistas como trampolim para que um indivíduo preocupado consigo mesmo ganhe o prêmio, justificando sua ascensão na crista deles.

Mais ou menos assim: um preto propõe juntar os pretos contra os brancos para que depois que só sobrem os pretos, que se matem entre si, até restar apenas o qual for o melhor dos pretos. Mas hai do preto que for machista! Então o jeito é humilhá-lo, manifestar nojo por ele porque afinal, ele é um macho. Como o branquinho filhinho de papai que diz que tem vergonha de ser homem, sendo que o “lugar de fala” de sua experiência de “ser homem” é simplesmente ser… filhinho de papai. Sim, por que ele passa longe dos problemas da preta que manifesta xenofobia mas que tem que ser relativizada porque, pobrezinha, é tão oprimida que chegou-lhe a chance de também oprimir. Coerência? Não, apenas a guerra de todos contra todos.

Ou seja, no fundo não é o grupo identitário que interessa. É a si mesmo. É o indivíduo. Já que ele nasceu ou aderiu a essa identidade, agora o jeito é usá-la para depois chutá-la e ficar sozinho no topo. Com isso, ele reafirma inconscientemente: veja como o neoliberalismo é inclusivo! Como com Clodovil que dizia que não tinha orgulho de ser gay, mas de ser o Clodovil. Como Morgan Freeman que depois que se tornou milionário nem se lembra mais do que é racismo.

Assim o BBB foi geniosamente montado. Para fazer a ideologia do identitarismo, da meritocracia e do individualismo se mesclarem garantindo a solidificação dos pilares do pensamento neoliberal.

Afinal, apenas um será milionário. Os que tentaram mas fracassaram ganharão um trocadinho com publicidade enquanto o nome estiver em evidência. Mas a massa que consome esse trash food está entregando fast food uberizada, buscando saber em qual letra cabe sua identidade. Ela sonha em seguir o exemplo que aprendeu na televisão, imaginando conseguir ter uma escada onde possa mostrar seu mérito e ser tão milionário quanto um BBB. Quem sabe até mesmo um Bill Gates.

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